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A violência autorizada

18/07/2014 às 19h29

De repente, alguns eventos alteram a tranqüilidade e trazem para o cenário das atenções o debate sobre a violência que, de forma sutil ou escancarada, atinge as mulheres de todas as procedências sociais e em todas as regiões do país. Uma violência que se manifesta não apenas pela sua mais significativa e visível caracterização, que é a violência física, mas que se ensaia e se insinua de maneira subreptícia, sorrateira, nas agressões psicológicas, nas desqualificações e adjetivações pejorativas que quebram, desestruturam, fragilizam a autoestima feminina. 

Não se pode desconhecer que, sobretudo, pela organização e pressão do movimento de mulheres organizadas, muitas conquistas foram registradas e personificadas em formas de leis e de equipamentos que procuram, por um lado, atender as mulheres que, diretamente, sofrem as consequencias da violência e, por outro, transformar as consciências através de campanhas e eventos educativos forjando uma cultura da convivência e da gentileza. Essas conquistas também alteram a relação de forças que, historicamente, sempre foi desproporcional as mulheres, punindo com mais severidade os agressores e ressignificando valores culturais que, tradicionalmente colocam as mulheres em situação de subalternidade.

No entanto, essas mudanças, por si mesmas, não são suficientes para proceder a uma transformação cultural mais pungente. Porque não é suficiente apenas uma lei que criminalize a agressão física ou psicológica contra as mulheres quando a sociedade, com seus padrões e referências de comportamento e atuação, estimulam a competição, premia os mais fortes e viris, valoriza heróis e menospreza os fracos e indefesos. Individualizada em sua competição que não destrói apenas o que existe de humanidade nos homens, mas o que existe de natural na natureza, a regra de vivência prevalecente reconhece como legítima e autoriza apenas a força, a truculência, a imposição. Nessas relações inexiste espaço para o diálogo, para a gentileza de gestos e ações, para a cordialidade de afetos e abraços.

As relações afetivas são mercantilizadas. Tudo tem seu preço e é quantificado e auferido pelos padrões do consumo e do descartável. O simples, mas expressivo, gesto do eu te amo resume-se a uma peça mercadológica que, envolvida no brilho das embalagens atrativas e banais, não mais revelam a dimensão de um afeto sincero ou de um sentimento real. Nesse contexto, agredir os mais fracos, menosprezar os diferentes, desqualificar os diversos são caminhos fáceis e rápidos para a agressão. Encarada, explicada e essencializada como legitima e autorizada. 

Mariana Moreira

Mariana Moreira

Professora Universitária e Jornalista

Contato: altopiranhas@uol.com.br

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Mariana Moreira

Mariana Moreira

Professora Universitária e Jornalista

Contato: altopiranhas@uol.com.br