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Mariana Moreira

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Causos arianos

02/08/2014 às 07h11

As mãos ossudas do velho mestre aplaudem o que ele considera uma das táticas utilizadas pelo povo brasileiro como forma de sobreviver às peias e amarras trançadas e atadas pelos “civilizadores” como forma de amordaçar vontades, restringir rebeldias e insurreições e interditar passadas e voos de liberdade. Os aplausos vão para a esperteza vista não como logro ou trapaça, mas como possibilidade de superar adversidades usando a criatividade e a imaginação.

Os aplausos evocam as histórias que, em minha infância, ouviam como relatos engraçados de primos de meu pai que, num dia de inverno pesado, são escalados para enterrar um defunto no pedregoso cemitério de Boa Esperança, hoje Distrito de Iara, no Ceará. Uma forte tempestade era anunciada pelo estrondar de trovões e os clarões de relâmpago que iluminavam a tarde e antecipavam coriscos que cruzavam os céus. Ao chegarem à morada derradeira percebem que a cova aberta era incompatível com o tamanho agigantado do defunto. Um dos primos não conta conversa e, munido de uma forte tora de madeira, quebra os ossos das pernas do desafortunado. Respondendo as indignações de alguns, simplesmente pondera: ora, para onde ele vai precisa de asas, não de pernas.

Mais recentemente, também pras bandas da ribeira de Impueiras, outro episódio expressa como o cotidiano do povo traz as marcas do inusitado. A família se aglomera em torno do chefe que, de idade avançada, começa a apresentar sinais de debilidade, antecipando a inevitável visita da “caetana”. Certo dia, os sinais da debilidade se tornam mais evidentes e o camarada entra num estágio de sonolência e de lerdeza. De pronto, todos os parentes, vizinhos e amigos são avisados. Tem início ao ritual da sentinela, entrem lamentos, suspiros, conversas, rodadas de cafés, caldos e expressões: ele era um bom homem! Os que com ele cultivavam inimizades e arengas são instados e pedirem perdão. 

Uma vizinha já entra no rol da herança do possível falecido, recebendo um jerimum da roça que ele cultivara no monturo da casa com a recomendação da iminente viúva que aproveitasse a fruta que era de boa qualidade, sobretudo, para se consumida com leite. Uma cunhada mais diligente mantem a sentinela em torno do leito já acendendo a terceira vela que sustentava na mão do enfermo, assegurando de pé junto que ele já estava morto da cintura pra baixo.  Entre preces e orações sussurrada, encomendava a alma ao acolhimento do divino.

Nesse balanço de suspiros e providenciais gestos de bom encaminhamento ao moribundo eis que, de repente, ele finca pé, senta no leito de morte e, entre olhares espantados e assustados, pede um gole de café e um prato de caldo.

Os dias seguintes são dedicados à reprise da história, que vai ganhando os mais variados contornos ao sabor de quem relata. Para alguns, o café sai de cena para dar lugar ao chá de erva cidreira. Para outros, ele apenas deu boa noite. O que une todas as prosas são apenas os ingredientes que, entre o realismo fantástico e a genialidade esperta de uma gente comum, vai conformando o mundo entre as fronteiras mágicas de Gabriel Garcia Márquez e Ariano Suassuna.

Mariana Moreira

Mariana Moreira

Professora Universitária e Jornalista

Contato: altopiranhas@uol.com.br

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Mariana Moreira

Mariana Moreira

Professora Universitária e Jornalista

Contato: altopiranhas@uol.com.br