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Crônica ou conto?

24/02/2014 às 22h59

Que horrível, meu Deus, como pôde fazer uma coisa dessas? Assim ela reagiu ao ler a notícia, as mãos trêmulas a segurar a página policial, insinuando-se em sua mente imagens confusas, misturadas, sobrepostas, arrancadas da memória. Tudo porque a leitura do jornal levou até sua alma um crime praticado por uma dona de casa. Um crime? Um ato não consumado, deixado pela metade, o marido a berrar de dor… E à vista do estrago causado, ela sacode longe o instrumento sujo de sangue, uma ponta de dúvida a invadir-lhe o coração, o remorso crescendo dentro dela, crescendo, crescendo até explodir em angústia explícita: meu amor, desculpa meu bem, perdi a cabeça…

Que horrível, meu Deus, como pode ser tão doida, coitada, continuou a ruminar pedaços de frases, palavras soltas que lhe povoam a memória até que uma imagem forte agiganta-se em meio ao tumulto que se fez em sua cabeça. Sua mãe. A imagem embaçada da mãe, sentada numa cadeira de balanço, a aproveitar restos de claridade do sol poente para cozer as roupas dos filhos. E dela mesma, ali num canto, pequena, tão pequena que nem era notada. Sentada na varanda a observar os movimentos dos galhos verdes ao vento brando da tarde, de folhas secas caindo no chão, o voo de azulões, sabiás e bem-ti-vis rumo ao pouso noturno. 

Tudo isso, era mais sentido do que visto. 

O olhar fixo na tesourinha, a mãe na cata dos fios da casa de botão, cortando pacientemente um a um. Cuidado de mãe. Só ela o tem assim, impregnado do seu jeito, pondo carinho no consertar a casa onde se aloja o botão, um a agasalhar o outro. A casa e o botão.  A mãe sequer pensa no dono da roupa. Ele está ali, disfarçado de botão, linha, casa, agulha, que ela, a mãe, a vista fixa no trabalho, a tensão do amor presa naquele gesto rotineiro, a cortar pedacinhos de fios inúteis para que o filho possa apresentar-se bem lá fora, na escola, na rua, no trabalho, nas festas, diante da namorada. Apresentar-se bem vestido. Limpo. Camisa passada, velha, mas engomada. O botão no lugar certo, a borda da casa alinhavada com esmero de mãe. Com amor de mãe, ainda que fosse para o gozo do olhar da namorada. Do toque da namorada, acostumada a deslizar os dedos nos botões do seu filho. Mania. Todo mundo via quando os dois ficavam juntos, pelo aceiro da casa. 

Que horrível, meu Deus, como pode uma mulher fazer tamanha barbaridade com seu homem?  E ela volta a correr a vista na página policial a buscar explicação para o gesto tresloucado de ciúme que quase mata o marido com golpes de tesourinha, justo no pedacinho do corpo mais sensível aos atos de amor, ao coroamento da paixão, no clímax da febre sem doença que alvoroça a mente, agita o corpo, eleva a alma. 

Levanta a vista, larga o jornal na cadeira, deixa escapar um murmúrio inaudível até para ela mesma. E ri. Um riso de alívio. Ainda bem que não havia ninguém mais na casa para notar o brilho insinuante do olhar. Ufa, ainda bem que aquela maldita não consumou o crime, fazendo da tesourinha um instrumento mortal. Talvez, quem sabe, tenha desejado o contrário, armar-se de amor. Talvez. Talvez. Mas isso a notícia de jornal sequer insinuou.

Francisco Cartaxo

Francisco Cartaxo

Escritor, filiado União Brasileira de Escritores/PE, ex-secretário de Planejamento da Paraíba, ex-secretário-adjunto da Fazenda de Pernambuco, ex-secretário-adjunto de Planejamento do Recife, Articulista semanal do jornal Gazeta do Alto Piranhas, de Cajazeiras, Consultor associado à CEPLAN, Consultoria Econômica e Planejamento.

Contato: cartaxorolim@gmail.com

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Francisco Cartaxo

Francisco Cartaxo

Escritor, filiado União Brasileira de Escritores/PE, ex-secretário de Planejamento da Paraíba, ex-secretário-adjunto da Fazenda de Pernambuco, ex-secretário-adjunto de Planejamento do Recife, Articulista semanal do jornal Gazeta do Alto Piranhas, de Cajazeiras, Consultor associado à CEPLAN, Consultoria Econômica e Planejamento.

Contato: cartaxorolim@gmail.com