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Francisco Cartaxo

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Feira agroecológica de Cajazeiras

03/04/2017 às 09h28 • atualizado em 03/04/2017 às 09h29

A pequena feira agroecológica de Cajazeiras tem, assim, enorme significação social, histórica e sociológica.

A chuva de sexta-feira, dia 24, não impediu que os feirantes armassem as barracas com os produtos da terra. Os compradores pareciam escassos, mas à medida que a chuva diminuía eles se chegavam, fugindo dos pingos d’água que caiam das folhas das cajazeiras plantadas por Tantino, na praça Cristiano Cartaxo. Pelas matérias veiculadas na internet eu já sabia da novidade.

Fui conferir.

Conferir e comprar e conversar. Só tive que atravessar a rua, pois ali em frente me hospedo, sempre que vou a Cajazeiras. Tenho o hábito de frequentar feira desse tipo, aqui no Recife, na praça da Casa Forte. Até já fiz amizade com vários assentados em comunidades rurais de Pernambuco. Em Cajazeiras adquiri batata doce e maxixe. Não fui tentado a comprar galinha de capoeira, buchada de bode, bolo de leite e outros itens de nossa culinária. Mas o vereador Marcos Barros saiu de lá carregado de sacolas com essas coisas e outras mais, alegre e faceiro, quem sabe, por matar dois coelhos de uma cajadada só: levou para casa produtos saudáveis e adubou votos!

Na feira agroecológica me senti à vontade.

Por várias razões. Conhecia algumas dos sítios de onde, hoje, procedem legumes, frutas e verduras sem uso de agrotóxicos. Naqueles lugares estivera, há muitos anos, quando pertenciam a ricos senhores de terra e gado e água e peixe e gente. Nas barracas do assentamento do sítio Santo Antônio, a jovem senhora vendedora sem terra me disse apontando para outro barraqueiro “aquele ali é dos Cochos, que também era terra dos Pires”. Ao lado estavam assentados da Serra Vermelha. Nem precisei de tempo para viajar ao passado e à política de Cajazeiras.

Mergulhei na história.

Santo Antônio e Cochos eram fazendas que, no século XX, pertenceram ao meu tio afim, major Galdino Pires, casado com tia Cartuxinha, filha do major Higino Rolim, meu avô paterno. Dono da primeira farmácia de Cajazeiras, instalada ainda no Império, doutor Gino, foi adestrado em línguas, pelo seu tio, padre Inácio Rolim, e destacado para ensinar grego e latim, no seu famoso colégio. Foi um homem ajustado aos padrões intelectuais do final do século XIX e, dadas as ligações familiares, exerceu cargos políticos no Império, como membro ativo do Partido Liberal e, já na República, integrou o bloco político hegemônico composto pelos Rolim, Coelho e Cartaxo. Como representante dessa facção política foi prefeito de Cajazeiras e deputado estadual na terceira legislatura republicana. Do major Higino veio boa parte da herança dos Pires.

Na feira agroecológica, junto dos agricultores familiares do Santo Antônio e dos Cochos estavam assentados de Serra Vermelha. Que coincidência! Serra Vermelha era nada mais nada menos do que a referência latifundiária dos chefes do Partido Conservador em Cajazeiras, João Franco de Albuquerque e, mais tarde, o herdeiro daquelas terras, coronel Justino Bezerra, o rico proprietário e comerciante que comandou a oposição local aos Rolim, nas primeiras décadas da República. Morreu em 1913, no exercício da prefeitura.

Agora, estão juntos na feira agroecológica de Cajazeiras…

Os feirantes da praça Cristiano Cartaxo não devem saber disso. Pouco importa. Eles simbolizam a mudança – sinuosa, lenta, sofrida -, no domínio sobre a terra, no tipo de exploração e uso da água e do solo, e, sobretudo, na apropriação do resultado do trabalho agrícola. A pequena feira agroecológica de Cajazeiras tem, assim, enorme significação social, histórica e sociológica.

Francisco Cartaxo

Francisco Cartaxo

Contato: cartaxorolim@gmail.com

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Contato: cartaxorolim@gmail.com