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Melancolia junina

22/06/2017 às 19h29

As minhas noites de São João, desde a mais tenra infância, sempre tiveram o sabor de um poema de Manoel Bandeira. Mesmo sem conhecer o vate pernambucano, a melancolia esfumaçada da época junina esteve presente na mais longínqua de minhas memórias. Ainda bem criança marca o primeiro São João sem meu irmão Manoel, abruptamente retirado do nosso convívio.

Um irmão afetuoso e companheiro que partilhava os torrões de açúcar inocentemente surrupiados da lata de cera cachopa enquanto mamãe cochilava o sossego do meio dia. Um irmão que, nas distantes noites de São João, tinha sempre em seu encalço agitados e gritantes rostos infantis a procura dos traques e chuvinhas displicentemente escondidos nas toras de juazeiro verde que ardiam e fumegavam na fogueira. Um irmão que ia nos encontrar nos tortuosos e desertos caminhos da escola do Cipó quando a aula atrasava por algum motivo, quase sempre as escaramuças entre Dona Lourdinha e Quinô.

Caminhos tranquilos mais imaginariamente habitados por papafigos, caiporas e visagens, sempre afugentados pelo sorriso acolhedor de Manoel escorado em alguma cancela. Um irmão que se misturava ao chapéu de couro do menino vaqueiro tangendo as minguadas reses na volta da roça de Malhada Vermelha. Um menino quase homem de quem papai dolorosamente se despede o rebatizando de “meus pés e minhas mãos”.

Esse primeiro São João também traz a marca da profunda tristeza que habita e extravasa dos olhos de papai e mamãe. Uma tristeza que umedece com lágrimas os tradicionais bolos de milho assados na palha de banana e consumidos como derradeiro ritual da noite de São João, depois dos traques, chuvinhas, o olhar o rosto na bacia e as prosas no calor da fogueira.

Nos anos seguintes, sempre após a agitação inicial das noites juninas, me assalta esse sentimento de ontem profundamente adormecido e melancólico. Um sentimento de distantes balões sumidos na escuridão da noite, ou de brasas adormecidas em volumosas cinzas diligentemente espalhadas, nas manhãs seguintes, ao redor da casa para afugentar maus presságios, olhos gordos e evocar a proteção do Santo. Um sentimento de rostos, risos, prosas daqueles tempos que dormem a sono solto nas brumas de lembranças e saudades.

Sempre procuro, por frestas e orifícios de madrugadas juninas, um desorientado balão que escapou da masmorra do tempo e se atreve, a revelia do que a atualidade determina como ecologicamente correto, a cingir o céu esfumaçado com seu candeeiro incandescente, atraindo zelações, pirilampos e sonhos da menina que, ainda hoje, procura a alegria do rosto do irmão inexplicavelmente roubado de sua presença em um triste ano de infância. E, como na narrativa do poeta, não mais encontra ninguém, pois “Estão todos dormindo. Estão todos deitados. Dormindo. Profundamente”.

Profundamente

Quando ontem adormeci
Na noite de São João
Havia alegria e rumor
Estrondos de bombas luzes de Bengala
Vozes, cantigas e risos
Ao pé das fogueiras acesas.

No meio da noite despertei
Não ouvi mais vozes nem risos
Apenas balões
Passavam, errantes

Silenciosamente
Apenas de vez em quando
O ruído de um bonde
Cortava o silêncio
Como um túnel.
Onde estavam os que há pouco
Dançavam
Cantavam
E riam
Ao pé das fogueiras acesas?

— Estavam todos dormindo
Estavam todos deitados
Dormindo
Profundamente.

Quando eu tinha seis anos
Não pude ver o fim da festa de São João
Porque adormeci

Hoje não ouço mais as vozes daquele tempo
Minha avó
Meu avô
Totônio Rodrigues
Tomásia
Rosa
Onde estão todos eles?

— Estão todos dormindo
Estão todos deitados
Dormindo
Profundamente.

Texto extraído do livro “Antologia Poética – Manuel Bandeira”, Editora Nova Fronteira – Rio de Janeiro, 2001, pág. 81.

Manuel Bandeira: sua vida e sua obra

Mariana Moreira

Mariana Moreira

Professora Universitária e Jornalista

Contato: altopiranhas@uol.com.br

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Mariana Moreira

Mariana Moreira

Professora Universitária e Jornalista

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