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Francisco Cartaxo

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Morto com um golpe de picareta

23/12/2014 às 14h29

Um espanhol mete a picareta na cabeça de um russo. O assassino é Ramón Mercader. A vítima, Leon Trotski, um dos principais teóricos do comunismo, ex-comandante militar da revolução russa de 1917. A tomada do poder pelos revolucionários, sobretudo após a morte de Lenine em 1924, acirrou a luta interna, afinal vencida por Josef Stalin. Em regime de terror, Stalin perseguiu, torturou, baniu ou matou quem atrapalhava sua ânsia de poder, incluindo antigos companheiros de partido. Senhor do bem e do mal, esmagou um por um. Trotski foi um deles. Depois de ser expulso do PC, foi deportado para o Cazaquistão e teve passagens pela Turquia, Noruega, França e México, aliás, único país onde foi acolhido, graças ao governo nacionalista do general Lázaro Cárdenas. 

Até aqui é história, utilizada como pano de fundo do romance “O homem que amava os cachorros”, (Boitempo Editorial, 589 páginas, 2013), do cubano Leonardo Padura. O livro não se limita a contar uma tragédia. Vai além, serve de fio condutor para a construção de fatos históricos com personagens reais, ocorridos na intrincada fase de implantação do comunismo na União Soviética, marcada por divergências autofágicas, por contraditórias alianças internacionais, com destaque para lances da frustrada revolução espanhola, a ascensão do nazismo e o começo da Segunda Guerra Mundial. Tudo isso aparece no romance de Padura. Síntese histórica, à guisa de prefácio, escrita por Gilberto Maringoni, professor da UF/ABC, ajuda o leitor brasileiro pouco familiarizado com a história mundial do século XX. 

Leonardo Padura não é um iniciante. Apaixonado pela literatura policial, ele já publicara contos e romances. “O homem que amava os cachorros”, escrito ao longo de muitos anos, revela superior qualidade ficcional. Ele usa variados recursos literários, técnicas narrativas apuradas. Padura recorre, por exemplo, a três vozes narrativas básicas. O narrador oculto que analisa episódios, sonhos, frustrações, intrigas relacionadas com a implantação do “socialismo real” na URSS, seus reflexos nas lutas dos comunistas no mundo, encaixando tudo com lances particulares que se desenrolam entre os personagens do romance. Parte do romance (oito dos 30 capítulos) é narrada em primeira pessoa por Ivan Cárdenas, um frustrado escritor cubano, cercado de medo no seu país, onde intelectuais enfrentam enormes dificuldades materiais, políticas e ideológicas, em particular a falta de liberdade que interfere na capacidade criativa dos artistas. 

Um encontro casual com um misterioso estrangeiro transforma Ivan em confidente. A partir daí, o leitor acompanha a emocionante trama do assassinato de Trotski, na cidade do México em 1940, planejada em Moscou, costurada em clima de suspense, com incomum competência literária, o executor do crime brutal a esconder-se em falsas identidades. Em paralelo o narrador-personagem faz reflexões críticas acerca do regime comunista na Ilha. O autor ainda enriquece o romance ao introduzir no final outro narrador, Daniel, para falar da morte de Ivan Cárdenas, seu amigo. Essa diversidade de vozes é um excelente recurso narrativo que dá ao romance elevada qualidade técnica, além de permitir ao leitor acompanhar, de forma discreta, nada panfletária, os percalços da vida em Cuba, em visão claramente autobiográfica. Tudo isso faz do romance de Leonardo Padura uma obra literária superior, histórica, atual e eterna.

Francisco Cartaxo

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Contato: cartaxorolim@gmail.com

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