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Francisco Cartaxo

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O olhar da filha do juiz

26/09/2016 às 12h39

Era uma vez… Depois de longo tempo ela voltou exuberante e madura. Poucos lembravam da menina-moça, mais moça que menina de tranças, metida numa farda colegial, o olhar penetrante, a carregar no coração a alma da cidade, onde o pai fora juiz de direito sério, competente, justo. A cidade crescera, adquiriu feição moderna, shoppings, bares, restaurantes, motéis, emissoras de rádio, sinais de trânsito, ônibus urbano, faculdades, clínicas, escritórios de advocacia. Muitas novidades.

A grande novidade, porém, era ela própria.

Voltavacomoexperiente promotorapública, depois de exercer o cargo em várias comarcas. Entre as pessoas que a guardavam na memória, aguçou-se enorme curiosidade,afinal, como se conduziria a filha do juiz? Magistrado, o pai deixara na região a fama de homeminteligente, íntegro e honesto. A curiosidade fervia mais ainda porque, com poucos meses de atuação na comarca, ela iria comandar a acusação,no júri popular,de um réu de crime hediondo. Um bárbaro que matara a própria esposa, por reagircom brutalviolênciauma paixão eventual compartilhada.O monstro sequer dissimulou a causa do crime.A vagina, a bunda, os peitos estraçalhados,a faca ensanguentada exposta na mídia. Ele não era um réu qualquer.Seu status socialfez explodir nas redes virtuaisa intimidade trágica do casal, como a oferecer um antídoto à histórica impunidade do machismo, ainda com adesão forte no grande sertão.

Pois bem, esse caso horripilante seriao primeirotestepúblicoda filha do juiz, uma bela figura de mulher, revestida agora da imponência do cargo.Olharesmúltiplos se dirigiam a ela, semos exagerados apelos sensuais de outros tempos, à procura de um sinal da menina-moça, na exuberância da maturidade, a atrair irresistíveis paixões. Ah, como sofreu o desventurado professor!No último instantede vida,o coitado reveloupor inteiro sua paixão ao murmurar baixinhoseu nome, enquanto esmagavao retrato da menina entre os dedos até que as mãos restassem brancas e rígidas.

Mas isso foi no passado.

Agora,promotora público, já não desfila de tranças em festas cívicas. A nova condição de autoridade lhe exigeoutra postura. Sema boçalidade dos medíocres, é claro. O vidrodo carro aberto para cumprimentar velhos conhecidos, o riso fácil, o abraço efusivo…adenunciar a menina-moça de antigamente, simpática e desejada.O olhar, ah, o olhar,misterioso olhar!

Estaria faltando o contraponto?

O dia chegou. O dia do júri mais aguardado da região. No solene ritual da Justiça, o tribunal popular iria proferir uma decisão histórica, no linguajar dos cronistas das emissoras de rádio. Conhecido radialista bradou:Será que vivemos ainda na era do cangaço e dos coronéis,a justiça praticada com as próprias mãos? Os jurados votarãoagarrados ao passado ou pensarãono futuro? O assassino será punido com rigor?

O júri decidirá.

No auditório via-se um senhor de cabelos brancos, bengala, lápis e caderno. Discreto, fazia anotações.De repente, um grito muito bem ecoou na sala no exato instante em que a promotora, com voz firme, encerra sua fala pedindo rigorosa punição para ouxoricida. O muito bem atraiu o olhar da filha do juiz,que, pela primeira vez exibe sinais de nervosismo ao encontrar a meio caminho o olhar daquele senhor de cabelos brancos. E vê projetar-sedo cabo de sua bengala a imagem de uma deusa.

Francisco Frassales Cartaxo

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Contato: cartaxorolim@gmail.com

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