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Mariana Moreira

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Para além do pão e do circo

31/05/2014 às 14h47

Eu quis cantar
Minha canção iluminada de sol
Soltei os panos
Sobre os mastros no ar
Soltei os tigres
E leões nos quintais
Mas as pessoas da sala de jantar
São ocupadas em nascer e morrer…
Caetano Veloso/Gilberto Gil)

Os romanos, como forma de manter a população sob o julgo de seus governantes, estimulavam e organizavam grandes espetáculos circerses, sobretudo, as lutas entre gladiadores. Também estabeleciam a distribuição de rações alimentares, em quantidade mínima, mas suficiente para amortecer a fome e a insatisfação popular. A população, amortecida pelos sangrentos combates nas arenas, onde a vida de lutadores eram decididas por gestos e vontades de cézares, negligenciavam a reclamação de suas precárias condições de vida. Uma realidade que cunhou a famosa expressão latina panis et circenses que, numa tradução literal, é entendida como pão e jogos circenses e, na linguagem corrente, apenas pão e circo.

Essa herança romana foi e continua sendo, em diversos contextos, uma eficiente estratégia de governantes para exercer o poder sem a participação popular, mas recebendo da população o conssentimento que permite, em muitas curcunstâncias, a subserviência que restringe direitos e silencia autonomia. Uma clara expressão dessa prática pode ser referenciada, na nossa conmtemporaneidade, nos investimentos que governantes empreendem para a promoção de espetáculos, como carnaval, festas juninas e congêneres. Eventos que são patrocinados por investimentos públicos, em grandes somas desviados de áreas prioritárias e essenciais, como saúde, educação, segurança, moradia, mobilidade urbana,  e que são investidos para, como nos grandes circos romanos, saciar o sentimento narcísico do governante e silenciar o ronco de barrigas e carências de cidadania da população.

Essas ponderações me ocorrem quando leio a decisão da prefeita de Cajazeiras em não patrocinar, com recursos do tesouro municipal, a festa de São João na cidade, no tradicional espetáculo do Xamegão. Não conheço a prefeita pessoalmente e, na perspectiva política, não tenho nenhuma afinidade com suas posições políticas e partidárias. Além disso, alimento inúmeras restrições a sua administração, por não vislumbrar, até o momento, uma intenção concreta e consequente de realizar um planejamento administrativo que instituia políticas públicas eficientes e operacionalizáveis, que dêem um direcionamento de governo além de um mandato e que sejam compatíveis com as demandas e carências que a cidade e todo o município apresenta, neste momento.

Também não vi, em sua posição de não patrocinar, com os recursos públicos municipais, a festa junina na cidade, nenhuma intenção mais séria em trazer para o conhecimento público, a situação concreta do município e como se apresenta a relação entre arrecadação e investimentos e despesas públicas. Além disso, não se observa nenhum movimento no sentido de trazer para a discussão, de maneira serena e ética, os erros e equívocos que foram cometidos, possibilitando que, num debate sincero e desapaixonado, a caixa preta que, em muitos momentos, envolve contas e finanças públicas, seja escancarada. Também não senti firmeza suficiente para que o gesto de não realizar o Xamegão com os recursos públicos se converta numa atuitude política que extrapole a mesquinha fronteira do revanchismo e da perseguição pessoal ou partidária. Os cochichos e fuxicos que gravitam nas franjas e dobras dessa questão não podem ofuscar ou obscurecer a importância política que essa atitude pode assumir como indício de uma mudança política e de uma prática administrativa que extrapole e vá além do polegar dos cézares sinonimizando a vida ou a morte dos seus súditos. 

Mariana Moreira

Mariana Moreira

Professora Universitária e Jornalista

Contato: altopiranhas@uol.com.br

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Mariana Moreira

Mariana Moreira

Professora Universitária e Jornalista

Contato: altopiranhas@uol.com.br