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Mariana Moreira

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Porque os sinos dobram?

24/09/2015 às 21h24

Por Mariana Moreira 

A cena chocou o mundo. E não poderia ser diferente. Milhares de fugitivos tentando escapar de guerras insanas arriscam e sacrificam suas vidas em botes improvisados que, frágeis ante a opulência do mar, não resistem a ventos mais fortes e tormentas, naturais e políticas. Todos se miram no farol turvo da liberdade que, fugidia, saltita em horizontes longínquos como quimeras que se dissipam ao mais brando sopro de interesse colonialista.

E seus corpos, despidos de vida, se amontoam em praias como macabros monumentos a intolerância e a ganância de um modelo de sociedade que, segregando homens, aparta humanidades, relegando à condições de invisibilidade os que se situam nas margens do lucro e da produtividade. Migrantes são estorvos que enfeiam as planejadas e assépticas urbes européias. Seus odores ameaçam contaminar os perfumados espaços por onde circulam rostos bem nutridos e rosados, fartamente alimentados com os produtos fabricados, em países pobres, por grandes aglomerados econômicos transnacionais que, fartamente e escancaradamente, se utilizam da mão de obra infantil, do trabalho escravo, do desrespeito a direitos trabalhistas.

Migrantes que, escapando da intolerância religiosa e das guerras injustificadas pelo senso de humanidade e tolerância, esbarram nas barreiras protecionistas, que criam redomas protetoras em torno de países, como a desconhecer que todos, africanos, europeus, latino americanos, índios são habitantes do planeta terra.

A imagem do corpo inerte do menino sírio Aylan, cuspido pelo mar em uma praia da Turquia, embora tenha assumido proporções mundiais na onda de indignação e repulsa, não é um episódio esporádico e isolado. 

No Brasil, diariamente, pequenos curumins de inúmeras etnias indígenas são mortos, de forma violenta, pelo agronegócio que, com a unção dos poderes, podres, invadem territórios e reservas, destruindo espaços de vivência e relegando a morte, pelo infanticídio, pela desnutrição, pela doença. Tudo com a torpe justificativa de que é preciso produzir mercadorias agrícolas (bois e soja) para abastecer os mercados consumidores mundiais. Afinal, somos o celeiro do mundo.
 
Dados do Conselho Indigenista Missionário (CIMI), uma entidade ligada a Igreja Católica, revelam que, ano passado, apenas em uma aldeia xavante do Centro Oeste, e na aldeia ianomâmi, na Amazônia, 162 índios, entre zero e cinco anos, morreram por uma causa singela: suas aldeias não mais representam espaços de vivência e sobrevivência. Foram invadidas por madeireiros, fazendeiros, grandes grupos do agronegócio que, com suas sementes transgênicas, sua sofisticada tecnologia, seu maquinário potente, destroem espaços humanos, queimam sociabilidades e afetos, expulsam grupos e elos sociais, matam homens, mulheres, crianças. Indígenas, ribeirinhos, posseiros, pequenos agricultores.

Os sinos não dobram apenas por Aylan, mas por milhões de pessoas em todo o planeta que continuam, diariamente, sendo apartadas da condição de gente. 

Mariana Moreira

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Contato: altopiranhas@uol.com.br

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