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Reminiscências juninas

27/06/2014 às 20h47

A fumaça que exala das fogueiras desenha contornos e projeta imagens em todos os tons, cintilando entre milhares de faíscas que, assiduamente explodem nas labaredas que iluminam e aquecem as frias noites de São João, como revoadas de pirilampos migrando do paul. Acesa no ocaso do dia, quando os derradeiros raios do sol são engolidos no poente pelo breu da noite, a fogueira, linguagem bíblica de anúncio, traz uma carga cultural de simbologia e representações.

A lenha verde da jurema e do juazeiro, diz a tradição, deve ser a recomendada para a montagem da pilha para que as chamas queimem com a lentidão necessária para iluminar a noite e aquecer o frio enquanto duram os folguedos, adivinhações, queimas de fogos, bombas traques e chuvinhas. Enquanto arde no calor do fogo a lenha deve exalar uma espuma que, segundo a tradição popular, deve ser aplicada morna em manchas e cicatrizes. Diz ainda a tradição que a brisa que sopra e determina a direção da fumaça prenuncia a intensidade e duração das chuvas no próximo inverno.

E o crepitar da madeira sendo engolida pelas labaredas vai determinando o ritmo das lembranças de outros São Joãos. Os gritos de meninos que giravam em torno da fogueira em brincadeiras de ousadia e coragem em segurar o traque na mão até a explosão. De encontrar o artefato escondido pelo irmão Manoel em locais discretos e engrossar a algazarra de sons e sonhos infantis que ganhavam mundos e cores nos luminosos balões que, esporádicos, riscavam a noite enevoada de fumaça. O sabor de bolos de milho e massa puba envoltos em palha de banana e assados no forno de lenha.

traz a lembranças de uma fumegante xícara de café com leite e o olhar de mãe terno e carinhosamente míope olhando os filhos dispostos em torno da rústica mas aconchegante mesa de jantar enquanto a luz bruxuleante da lamparina desenhava enigmáticos mistérios nas paredes retalhadas de buracos das esporádicas e modestas manutenções.

Um rádio de pilha espalha o som de músicas gonzaguianas entre chiados e ruídos da fragilidade tecnológica da transmissão. O barulho insistente do armador marca o ritmo do balanço da rede que cantarola um Olha pro céu meu amor. Ao longe o roncar de uma sanfona antecipa os forrós que reuniam e aproximavam pessoas e prosas em torno do chão batido e frequentemente aguado e das bandeirolas de papel vagabundo que desenhavam e esquadrinhavam o pavilhão enquanto barracas vendiam rodelas de abacaxi, tragos de aguardente, goles de café e taiadas de bolo.
No drible da vigilância paterna flertes eram ensaiados na antecipação de uniões futuras. Na algazarra infantil a transgressão de ensaiar passos de dança escapando da perseguição dos cobradores de cotas.

O espocar mais forte de uma bomba estala e escancara a realidade presente. O som que chega traz a marca da novidade das caixas acústicas. O céu iluminado pela energia elétrica encanta balões e emudece o ronco dos foles. Apenas a saudade como a reviver os versos de Manoel Bandeira.

Mariana Moreira

Mariana Moreira

Professora Universitária e Jornalista

Contato: altopiranhas@uol.com.br

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Mariana Moreira

Mariana Moreira

Professora Universitária e Jornalista

Contato: altopiranhas@uol.com.br