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Mariana Moreira

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Sonhos de meninos e homens

17/04/2014 às 18h41

Os gritos de crianças e adolescentes expressam manifestação de alegria na repetição de experiências e de manifestações de jubilo com a natureza e suas inexplicáveis formas de ressignificar a vida. As águas turvas do riacho engravidado pelas chuvas que exorcizam o cinza e a melancolia das secas correm entre cangapés e brincadeiras inocentes como a celebrar a estranha e enigmática simbiose entre o meio e o homem. Ao fundo, abafando os gritos humanos, o coaxar dos sapos, de todas as variações, modalidades e sonoridades, se alia ao cantar de sabiás, rolinhas, galos de campina, com os berros e urros de vacas e bois que pastam as ramas verdes e suculentas que brotam em várzeas e grotões tingindo de múltiplas tonalidades de verde o chão. 

Para quem nasceu e nasce no sertão e sempre teve e tem a chuva, e sua ausência, como marco divisor entre a esperança da vida na terra sertaneja e o receio de inanição e apatia na estiagem, as precipitações que reconfiguram a paisagem tem um sabor e um clima de sinfonia. Os sons, os tons e os brilhos que se desprendem de plantas, bichos, homens e matos se somam aos semblantes alegres de rostos curtidos de sol, de odores de feijão verde cozidos em fogões de lenha e temperados com pequi, nata e coentro, de maxixes e amarelos de flores de canafístulas, de bezerros escramuçando serelepes nos fins de tarde projetando sombras de sois esmaecidos em poentes emoldurados de torreames, alvíssaras de novas chuvas.

E os gritos atravessam o dia. Novos meninos e adolescentes se somam no alarido de vozes, no desenrolar de acrobacias, no inventar de brincadeiras e folguedos. Gritos que revolvem o tempo e me larga nos terreiros de Impueiras quando as primeiras chuvas nos transformava em construtora de currais feitos com sobras de cercas paternas e varas de farpas de matapasto da invernada passada. Currais que abrigavam bois de ossos de corredor e que davam uma dimensão de latifúndio imaginário aos nossos minifúndios de casas de bonecas e sonhos.

As chuvas ainda não foram necessárias para apagar os rastros de vários anos de estiagens e desolação. Mas, em todos os grotões de serra, em todas as ribeiras e ribanceiras, em todos os córregos e riachos brotam folhas e ramagens, correm, tímidos ou voluptuosos, veios de água que vão alcançando a maturidade de riachos e ribeirões a cada nova curva, a cada clarão de relâmpago, a cada rajada de chuva que, tangida pelo vento, embebe a terra e fertiliza a esperança.

E os meninos continuam fazendo das águas barrentas do Riacho de Impueiras cenário de brincadeiras que outrora acalantaram outros meninos que hoje, amadurecidos pelo tempo, ainda se encantam e são tocados pelos encantos e acalantos da simplicidade e da grandiosidade de um insignificante banho de riacho. 

Mariana Moreira

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Contato: altopiranhas@uol.com.br

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