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Uma recapitulação histórica, cultural e sociopolítica do africano no Brasil

18/11/2016 às 18h25

Zumbi dos Palmares é um dos maiores símbolos da resistência negra no Brasil

Zumbi dos Palmares é um dos maiores símbolos da resistência negra no Brasil

A etnia do povo brasileiro é formada por três povos distintos entre ele o “negro,” cujo povo plantou um legado cultural, grande lição de organização e de resistência política em defesa da libertação na condição de escravo no Brasil. Até hoje, a nação ainda sofre os preconceitos e o racismo em razão da sua cor, perdurando ainda na consciência  negra  o sentimento de lutar pela sua dignidade enquanto pessoa.

O dia 20 de Novembro é consolidado no Brasil como Dia Nacional da Consciência Negra. Este dia foi criado em 2003 e instituído em âmbito nacional através da Lei nº 12.519 de 10 de Novembro de 2011. Apesar de tão importante data em comemoração aos grandes feitos da população negra, aqui no país, só é feriado em cerca de mil  municípios dos estados brasileiros: Alagoas, Amazonas, Amapá, Matogrosso e no Rio de Janeiro. O Dia da Consciência Negra além de celebrar a consciência afro-brasileira, homenageia Zumbi dos Palmares líder da República de Palmas, um negro que morreu enquanto defendia a sua comunidade e lutava pelos direitos de liberdade.

Zumbi nasceu em 1655 em um dos acampamentos do quilombo, foi aprisionado ainda jovem e em 1662 é dado ao Padre Antonio Melo que o batizou com o nome de Francisco, foi ensinado ao jovem negro: latim e português o qual passou a ajudar ao sacerdote em suas missas. Durante 14 anos entre 1680 e 1694, Zumbi liderou a República dos Palmares revidando e afastando os ataques das tropas portuguesas. Em 1694 os portugueses derrotaram Zumbi e destruíram a República dos Palmares, o mesmo ainda conseguiu viver durante um ano até ser denunciado e encontrado pelos portugueses, sendo preso degolado em 20 de novembro de 1695. Zumbi lutou até a morte contra a escravidão que veio a ser abolida em 1888 com a oficialização da Abolição da Escravatura no Brasil   cerca de  193 anos após sua morte.

O Quilombo dos Palmares foi fundado em 1600, localiza-se na Serra da Barriga (CE) e na época 30 mil negros foragidos dos engenhos de açúcar de Pernambuco passaram a morar na região. A palavra quilombo se origina de quimbundo, ki lombo significando acampamento, arraial, povoação, união, exército (LOPES, 2006, p.186). Mas no contexto vivido pela população africana a palavra quilombo ganhou mais sentidos foi muito mais que esconderijo de escravos. Quilombo é um epicentro do fenômeno da quilombagem que organizado e dirigido pelos próprios escravos durante o escravismo brasileiro, caracterizou um movimento de mudança social que provocou e desgastou significativamente o sistema escravista, social, econômico contribuindo para a crise do escravismo que foi substituído mais tarde pelo trabalho livre. Foi o espaço onde os (as) negros (as) puderam desenvolver seus costumes e reafirmar sua identidade. (MOURA, 1994.p.22-24).

Mesmo a cultura negra sendo tolhida pelos portugueses aqui no Brasil, grandes contribuições aconteceram, a começar pela presença de vocábulos de origem africana, enriquecendo o idioma português falado no Brasil, palavras relacionadas a culinária (acarajé, mungunzá, angu); na religião (Oxalá, Xamgô, Ogun) uma vez proibidos de praticar a sua religião, o Candomblé, os africanos  associaram um Orixá  ao  nome de um ou mais santo da religião católica; folclore (danças, música, lendas canções, superstições e artesanato); instrumentos musicais(afoxé, atabaque, berimbau);na dança (o coco, o frevo,o maracatu a capoeira com movimentos estilizados)

No aspecto econômico, os africanos foram fortes colaboradores não pelo lado intelectual, mas no plantio da cana-de-açúcar, uma vez que o Brasil não tendo ainda revelado valores minerais só poderia ser colônia agrícola, os portugueses não possuíam braços para o cultivo agrícola, a saída era arrumar trabalhadores baratos através do regime escravagista. Vale salientar que após a abolição da escravatura a população negra ainda passou por diversos problemas no campo da economia: dificuldade de encontrar espaço para trabalhar e de fixar moradia.

Além das lutas para a libertação e abolição da escravatura, houve a atuação da nação negra em outras batalhas como: a luta pela independência, expulsão  dos holandeses, na Revolução Farroupilha e Cabanagem, na Inconfidência Mineira e Inconfidência Baiana, na Revolta de Canudos e da Chibata. Segundo Moura (1989), após a escravidão e o fim do Império os negros participaram de movimentos radicais da plebe (conjunto de pessoas pertencentes à classe menos favorecida). A ascensão do negro na política brasileira começou a partir dos movimentos com grandes contribuições no sentido intelectual. Surgiu em todo país mais de 20 jornais escritos por negros entre eles (O Alfaiate, A Liberdade e outros) o que possibilitou a nação negra a ter uma imprensa independente procedente da classe operária e o jornal se tornou a tribuna de reivindicações da mesma.

Com a chegada da industrialização em São Paulo, na década de trinta, a cidade contava com mais de 922 mil habitantes dentre eles 100 mil eram negros vivendo em condições precárias, buscavam formas de se integrar como cidadão na sociedade brasileira. Mesmo assim, no sentido da inserção do negro no mercado de trabalho apresentava participação ativa e ao mesmo tempo desagradável, visto que nas regiões metropolitanas a população negra composta de pretos e pardos era vítima de discriminação porque prevalecia a lógica da exclusão, sendo os negros submetidos no trabalho a condições subalterna, mal remunerados no setor de subsistência nos quais prevaleceram a ausência de proteção previdenciária e desrespeito aos direitos trabalhistas.

Para exemplificar as desigualdades de direitos trabalhistas no que diz respeito à remuneração ainda prevalecem desigualdades entre homens e mulheres negras em relação à população não negra na indústria metalúrgica. Segundo pesquisa do DIEESE (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos), em 2014 a inserção do (da) trabalhador (a) negro (a) em segmentos mais precários a remuneração básica era menor do que a do trabalhador (a) não negro (a) sendo assim os negros recebiam 71,7% da remuneração dos não negros. Na distribuição por gêneros as desigualdades são ampliadas adotando como 100% a remuneração média do homem não negro e a mulher não negra recebia 72,3% da remuneração do primeiro. Já o homem negro 71,6% e por último a mulher negra 50,5% metade da remuneração do homem não negro.

Para Édson Franco presidente da União de Negros pela Igualdade (UNEGRO) trata-se de um dos movimentos mais importante para chamar atenção dos brasileiros  sobre a desigualdade social alarmante que ainda existe em todo o país. Está claro na compreensão das organizações o genocídio contra a juventude negra; jovens negros são assassinados e nada é feito para impedir e punir os culpados, “cinco jovens negros são assassinados ao dia. Quem mata os jovens negros? O Estado não é somente omisso. Não! O Estado também aponta o gatilho” pontuou.

Como se observa as dificuldades ainda prevalece na população negra do Brasil, os avanços acontecem, o grande exemplo dos quilombos visto como movimentos políticos independentes dos escravos, resultantes da própria força negra na busca da sua identidade e pessoa valorizada na sociedade foi o resultado do seu próprio trabalho e mobilização. Ainda no contexto dos preconceitos, prevalece a discriminação contra a raça negra mesmo com todas as contribuições no Brasil. A intolerância contra as religiões afro-brasileiras até mesmo com ataques aos cultos é a ponta do iceberg do racismo que ainda existe neste país.

Hoje já existem organizações populares, a exemplo do Movimento Social Negro que enfrenta dificuldades apesar das conquistas, porque o racismo ainda está presente, embora exista representante de origem negra destacando-se dentro das organizações e posições destacadas nas hierarquias públicas. Na mídia, as pessoas negras também vêm conquistando espaço nos telejornais, telenovelas e comerciais, não se ver mais pessoas negras no papel coadjuvante ou papéis de profissionais apenas operacionais.

Atualmente a cultura  afro-brasileira através  da dança e da música está sendo focada na mídia com o objetivo de acabar com o preconceito. Com influência do Black Music norte-americano, a música negra no Brasil vem ganhando espaço, a própria música de periferia o Samba, Funk, Hip Hop e Rap é uma forma de manifestar a opressão sofrida pelos (as) negros (as) que continuam na luta buscando sua valorização, assim como o Blues e o Jazz são clássicos da música negra e reconhecida pelos intelectuais. A quebra da discriminação racial se encontra nas representações artísticas visto que o cotidiano da vida negra está estampado nas produções artísticas um exemplo é o quadro “A Congada” representação das lutas e reinados africanos resgatando assim a cultura afrodescendente e a lembrança de que antes eram reis em seu país.

Recentemente o sistema de cotas oportunizou ao negro entrar na universidade, porém haja questionamentos se as cotas atingem os negros que vivem no contexto das favelas; jovens que não têm o mínimo de estudo para submeter a provas avaliativas  são vítimas da situação de desigualdade social e racial que ainda existe no país. O Plano de Enfrentamento à Violência contra a Juventude Negra visa prevenir a violência entre jovens negros, resta saber se isto está funcionando mesmo.

A valorização dos afrodescendentes vem acontecendo, resultado da luta através das organizações defensoras dos mesmos. No campo jurídico, houve avanços quando é considerado crime a prática do racismo sofrendo ação penal por delito inafiançável quem assim praticá-lo garantindo  o respeito à dignidade deste povo.Vale salientar que foi preciso  se criar leis de proteção a alguém pelo simples fato de ter a pele escura! Por outro lado, na área econômica a renda per capita média dos negros cresceu 66,3% em relação a dos brancos e a dos pardos, 85,5% isto significa que o poder aquisitivo dos  afrodescendentes teve uma melhora porque antes ainda era mais triste esta realidade.

O Dia da Consciência Negra não celebra simplesmente a consciência afro-brasileira, mas tem o objetivo de fazer uma reflexão sobre o relevo da cultura do povo africano e o impacto que tiveram na evolução política brasileira. Resgatar as lutas e enfrentá-las não é só no mês de novembro, as condições que a população negra no Brasil tem de superar é uma tarefa de todos que deve ter compromisso com uma sociedade mais justa e solidária.

Professora Maria do Carmo de Santana

Cajazeiras – novembro de 2016

Maria do Carmo

Maria do Carmo

Professora da Rede Estadual de Ensino em Cajazeiras. Licenciatura em Letras pela UFCG CAMPUS Cajazeiras e pós-graduação em psicopedagogia pela FIP.

Contato: profmariadocarmosantana@gmail.com

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Maria do Carmo

Maria do Carmo

Professora da Rede Estadual de Ensino em Cajazeiras. Licenciatura em Letras pela UFCG CAMPUS Cajazeiras e pós-graduação em psicopedagogia pela FIP.

Contato: profmariadocarmosantana@gmail.com