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Jornal trás matéria e destaca a seca que ameaça o maior rio do Grande Sertão

Desde a publicação do livro, o São Francisco ficou mais estreito, ganhou ilhas e áreas com vegetação

Por Campelo - Diário do Sertão em Sousa

14/02/2017 às 08h57

Rio São Francisco (Foto: Reprodução)

“O de-Janeiro, dali abaixo meia-légua, entra no São Francisco, bem reto ele vai, formam uma esquadria. Quem carece, passa o de-Janeiro em canoa – ele é estreito, não estende de largura as trinta braças. Quem quer bandear a cômodo o São Francisco, também principia ali a viagem. O porto tem de ser naquele ponto, mais alto, onde não dá febre de maresia. A descida do barranco é indo por a-pique, melhoramento não se pode pôr, porque a cheia vem e tudo escavaca. O São Francisco represa o de-Janeiro, alto em grosso, às vezes já em suas primeiras águas de novembro.” (Grande Sertão Veredas, páginas 90 e 91)

No romance Grande Sertão: Veredas, a segunda fase importante da vida do jagunço Riobaldo começa nas margens do Rio de Janeiro, afluente que deságua no São Francisco na altura do município de Três Marias. Ali ele chegou criança, com a mãe. Foi na Barra do Rio de Janeiro que conheceu Diadorim. Lá o jagunço também atravessou pela primeira vez o São Francisco, maior curso de água do Grande Sertão.

Muita coisa mudou desde a publicação do livro. Entre as cidades mineiras de Pirapora e Buritizeiro, o São Francisco ficou mais estreito e ganhou ilhas e áreas cobertas de vegetação. A água ficou mais turva. Mas não só ele se transformou. No distrito de Guaicuí da vizinha Várzea da Palma, deságua assoreado o Rio das Velhas, que carrega a história da mineração da Vila Rica. Antes de cair sujo no São Francisco, o das Velhas recebe as águas do Córrego do Batistério, mais um entre tantos pequenos cursos quase secos, atingidos pela irrigação irregular e pelo desmatamento em suas margens.

Três Marias, antiga Barreiro Grande, cresceu com o represamento das águas do São Francisco, para gerar energia elétrica. De lá até a Barra do Rio de Janeiro são 55 km de estrada de chão. No caminho, há um cheiro quase insuportável de uma barragem de dejetos de uma unidade metalúrgica da Votorantim Metais. Grupos de geraizeiros acusam a empresa de ter jogado rejeitos industriais diretamente no São Francisco durante anos.

Também dizem que a barragem, construída para interromper a contaminação, não impede a infiltração do lençol freático. Por meio de sua assessoria, a empresa disse que “possui um sistema de gestão de barragens para garantir a segurança da sua operação” e “a unidade de Três Marias possui todos os licenciamentos necessários para sua operação”. “Todos os efluentes gerados pela unidade são monitorados e atendem os parâmetros legais, com relatórios enviados periodicamente ao órgão ambiental responsável.”

Uma floresta de eucaliptos margeia os dois lados da estrada, que termina na antiga sede de uma fazenda, à beira de um curso de água calma e parada. É o Rio de Janeiro. Até chegar ao ponto onde ele se encontra com o São Francisco, é preciso andar a pé por cerca de 1 km de capoeira e mata ciliar, habitado por corujas, seriemas e gaviões-do-cerrado. Após cruzar um cipoal e um bambuzal na margem do Rio de Janeiro, ouve-se o barulho de um rio de correnteza. O São Francisco demonstra bem mais força. Ali, como Guimarães Rosa descreve no romance, o São Francisco entra no de Janeiro e o represa.

Riobaldo é convencido por Diadorim a atravessar o São Francisco numa canoa. “Tive medo. Sabe? Tudo foi isso: tive medo! Enxerguei os confins do rio, do outro lado. Longe, longe, com que prazo se ir até lá? Medo e vergonha”, relembrou. Nisso, Diadorim lhe diz: “Carece de ter coragem…”. Riobaldo, então, confessa que não sabia nadar. “O menino sorriu bonito. Afiançou: ‘Eu também não sei.’ Sereno, sereno. Eu vi o rio. Via os olhos dele, produziam uma luz.”

Na outra margem do Rio de Janeiro, homens pescam em canoas. Com certa insistência e após mostrarmos que não somos gente do mal – em todo o Grande Sertão, as pessoas são desconfiadas, têm histórias ruins de bandidos que fogem da lei -, um deles nos leva até o outro lado. O canoeiro não liga o motor, pois explica que o nível do rio, o mesmo de-Janeiro que causava temor em Riobaldo, está muito baixo, a ponto de se poder atravessá-lo a pé.

Gilmar de Fátima Ferreira, de 48 anos, conta que nasceu e foi criado nas margens do afluente do São Francisco. Aos 19 anos, foi para Três Marias em busca de emprego. Trabalhou 26 anos na caldeira da Votorantim. Aposentado, passa boa parte do tempo numa casa simples à beira do rio.

“No meu tempo de criança, a água no período das chuvas chegava até o alto desse barranco (cerca de 2 metros). Mas houve muito desmatamento nas margens. As pessoas não respeitavam. Tinha embarcação que subia o rio para vender alimentos, carne-seca e enlatados, o que não fosse perecível”, lembra. “O dourado gosta de água de correnteza, do São Francisco. Ele entrava no Rio de Janeiro, dava uma volta, mas gostava mesmo de água forte.”

Gilmar associa a redução drástica de água do São Francisco não apenas à seca, mas ao desmatamento. “Houve assoreamento de boa parte do rio. Muitos cortaram a mata até a margem do São Francisco”, relata Gilmar. “Nunca vi o São Francisco e o de Janeiro tão secos. Isso entristece a gente.”

Usina

Desde o início da seca, em 2014, ribeirinhos criticam a Usina Hidrelétrica de Três Marias de represar água em excesso. Construída nos anos 1960, a usina é operada pela Companhia Energética de Minas Gerais (Cemig). A hidrelétrica tem capacidade de geração de 396 megawatts de energia. Hoje, porém, com a redução do nível da água, só produz 24 megawatts. O nível do reservatório é de 27%.

“É natural que a população ache que a Cemig prioriza o uso de água para energia”, afirma Ivan Sérgio Carneiro, engenheiro de Planejamento Energético da empresa. “Desde 2014, estamos vivendo anos de déficit hídrico, com 65% do volume de chuva abaixo do esperado. Este início de 2017 é o pior janeiro registrado nos últimos 80 anos.” Ivan conta que a usina represa 340 m³ de água por segundo e libera de volta para o rio 80 m³. Antes da estiagem, a liberação chegava a 200 m³.

O engenheiro ressalta que o represamento e a liberação de água para o trecho a jusante do rio são decididos agora por um fórum que reúne Agência Nacional de Águas, Ministério Público, empresas e governos estaduais. Pelo Código da Água, o consumo humano tem prioridade em relação à geração de energia.

Notícias ao Minuto com as informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

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