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Nordeste corre contra o tempo para salvar cidades assoladas pela seca

Moradores reclamam que água de reservatório está suja, malcheirosa e imbebível

Por Campelo - Diário do Sertão em Sousa

20/02/2017 às 12h04 • atualizado em 20/02/2017 às 09h09

(Foto: Ueslei Marcelino/Reuters)

Carcaças de vacas jazem em campos chamuscados nos arredores da cidade de Campina Grande, na Paraíba, e cabras famintas procuram comida no chão de terra rachada do reservatório de Boqueirão, que serve a cidade desesperada por água.

Depois de cinco anos de seca, o agricultor Edivaldo Brito diz que não consegue se lembrar quando o reservatório do Boqueirão esteve cheio. Mas ele nunca o viu tão vazio.

“Perdemos tudo: bananas, feijões, batatas”, afirmou Brito. “Temos que caminhar 3 quilômetros apenas para lavar a roupa.”

O Nordeste árido do País está enfrentando sua pior seca que se tem registro, e Campina Grande, que tem 400 mil habitantes que dependem do reservatório, está ficando sem água.

Após dois anos de racionamento, os moradores reclamam que a água do reservatório está suja, malcheirosa e imbebível. Aqueles com mais condições podem comprar água engarrafada para cozinhar, escovar os dentes e até mesmo dar aos seus animais de estimação.

O reservatório está com 4% da capacidade e as chuvas devem ser escassas este ano.

“Se não houver recarga natural de chuva ou artificial com a transposição, a cidade vai entrar em colapso hídrico no máximo no meio deste ano”, afirma Janiro Costa Rêgo, especialista em recursos hídricos e professor da universidade federal de Campina Grande. “Seria um holocausto total, você teria que evacuar a cidade sem água.”

O governo federal diz que ajuda está a caminho.

Transposição do São Francisco

Depois de décadas de promessas e anos de atrasos, o governo afirma que a transposição do maior rio brasileiro, o São Francisco, logo aliviará Campina Grande e fazendeiros desesperados em quatro Estados do Nordeste.

A água será bombeada sobre colinas e através de 400 quilômetros de canais e vazado em bacias hidrográficas secas do Ceará, Rio Grande do Norte, Pernambuco e Paraíba.

Iniciado em 2005 pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o projeto foi adiado por disputas políticas, corrupção e custos excedentes de bilhões de reais.

A recessão no Brasil, que os economistas calculam ter reduzido a economia do Nordeste em mais de 4% durante cada um dos últimos dois anos, deixou a situação pior.

Agora, o presidente Michel Temer está acelerando a conclusão do projeto, talvez sua melhor oportunidade para aumentar o apoio ao seu impopular governo em uma região há muito tempo dominada por Lula e pelo PT.

Em 6 de março, Temer planeja abrir um canal que alimente o reservatório de Campina Grande na cidade paraibana de Monteiro. A água ainda levará entre um mês e dois para descer o leito seco do rio Paraíba até o Boqueirão.

Com a qualidade da água em Campina Grande piorando a cada dia, é uma corrida contra o tempo.

O professor Costa Rêgo diz que a água do reservatório se tornará intratável em março e poderia prejudicar os moradores que não têm recursos para comprar água engarrafada.

O ministro da Integração Nacional, Helder Barbalho, responsável pelo projeto, afirma que o governo está confiante que a água chegará dentro do cronograma.

“Sob âmbito do volume, nós chegaríamos a um colapso absoluto em Campina Grande por volta de setembro. Nós temos que entregar a água em abril de qualquer forma. Nossos calendários são extremamente ajustados”, declarou ele.

A seca que assola lavouras do Nordeste tem impacto menor na produção brasileira de grãos e cana-de-açúcar, uma vez que a maior parte da safra nacional está localizada no centro-sul do País.

Alterações Climáticas

A mudança climática intensificou as secas no Nordeste brasileiro nos últimos 30 anos, segundo Eduardo Martins, presidente do Funceme, agência meteorológica do Estado do Ceará.

A precipitação diminuiu e as temperaturas subiram, aumentando a demanda por irrigação agrícola. O abastecimento de água caiu e a evaporação acelerou.

Costa Rêgo culpa a falta de gestão dos governos brasileiros pelas crises de água persistentes e repetidas, chocante para um País que possui as maiores reservas de água doce do planeta.

O principal reservatório que abastece São Paulo, com uma região metropolitana de 20 milhões de habitantes, praticamente secou em 2015. Já a cidade de Brasília recorreu ao racionamento este ano.

Em Fortaleza, segunda maior cidade do Nordeste, o reservatório vital de Castanhão está com 5% de sua capacidade.

A capital do Ceará também receberá água do projeto São Francisco, mas ela não chegará pelo menos até o fim do ano, porque a empreiteira Mendes Júnior abandonou o trabalho ao ser envolvida em um grande escândalo de corrupção.

“A água do rio São Francisco é fundamental para permitir a recarga de Castanhão”, disse o governador do Ceará, Camilo Santana (PT), à Reuters. Segundo ele, o reservatório pode abastecer o Ceará somente até agosto.

Depois disso, o Estado precisará perfurar poços de emergência, aproveitar mananciais e impor uma redução obrigatória de 20% no consumo para manter as torneiras de Fortaleza funcionando até que a água chegue.

Sete empresas fizeram propostas para a licitação do trecho que era da Mendes Júnior. A obra deverá recomeçar em março e a água poderá chegar a Castanhão em outubro ou novembro, diz Santana.

Racionamento

O Ceará teve que reduzir a irrigação, prejudicando os exportadores de flores e melões, os pecuaristas e os produtores de leite. Eles esperam a recuperação da atividade após a transposição, mas matar a sede das cidades será prioridade.

Em Campina Grande, em um centro têxtil, incluindo empresas como Coteminas e Alpargatas, o racionamento reduziu os planos de expansão das companhias, que tiveram que diminuir drasticamente o consumo e reciclar a água que utilizam.

Lá, também, a água nova primeiramente irá para resolver a crise em Campina Grande e cidades vizinhas. Apenas depois as autoridades vão pensar na agricultura.

“Primeiro temos que matar a sede dos consumidores urbanos. Só então vamos pensar em produzir riqueza”, afirmou João Fernandes da Silva, o principal responsável pela gestão da água na Paraíba.

O racionamento tem afetado particularmente as famílias urbanas mais pobres. Muitos não têm água corrente ou tanques de água e, em vez disso, guardam água em garrafas de plástico.

Para aqueles que esperaram décadas pela transposição do São Francisco, eles só vão acreditar quando virem o fluxo de água.

Brito disse que ele e seus vizinhos sobrevivem graças a programas sociais que foram a marca registrada do PT.

“Sem o programa Bolsa Família, estaríamos morrendo de fome”, afirmou Brito, que acredita que a escassez pode persistir mesmo após a transposição do rio. “É temporada política novamente, então eles nos prometem água apenas para ganhar os nossos votos.”

R7

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