header top bar

Mariana Moreira

section content

Canto no escuro

01/11/2017 às 18h55

Eduardo Alves da Costa, Maiakóvsky

Revolvendo forças para entender e enfrentar esses tempos sombrios, pouco encontro como seiva para alimentar a esperança. Tempos sombrios em que o desânimo se apresenta como o sentimento mais presente em expressões e falas de tantos. Expressões e falas que traduzem resignação, impotência, desatino, determinismo. Sentimentos que sugam toda e qualquer possibilidade de reação e resistência por se depararem como movimentos de força centrífuga avassaladora, fascista e autoritária, mas maquiada como natural e “democrática”.

Encontro, de soslaio, fragmentos do poema No Caminho, com Maiakóviski, do poeta carioca Eduardo Alves da Costa. Poema escrito na década de 1960 em que o autor ensaia uma conversa com Vladimir Maiakovski, poeta russo, panfletário, que morreu em 1930. Deparo-me com o trecho mais conhecido do poema, que foi repetido e reproduzido em faixas, muros, camisetas, ou alardeados em tantas bocas de protestos e indignação contra a tirania.

Na primeira noite eles se aproximam
e roubam uma flor
do nosso jardim.
E não dizemos nada.
Na segunda noite, já não se escondem:
pisam as flores,
matam nosso cão,
e não dizemos nada.
Até que um dia,
o mais frágil deles
entra sozinho em nossa casa,
rouba-nos a luz, e,
conhecendo nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.
E já não podemos dizer nada.

E mergulho em nossa recente história e vejo um movimento de descenso em nossa capacidade de indignação e rebeldia. Impeachment, reforma trabalhista, escola sem partido, reforma da previdência. São momentos que parecem arrancar de nossas gargantas a voz que articula subversão. E não mais dizemos nada. Ou quando muito, cochichamos entre frestas e muros, como a fugir da onipresença perniciosa e sorrateira de setores parciais da mídia, de uma justiça que, em recorrentes momentos, escancara sua filiação histórica aos dominantes e a casa grande. De setores majoritários do legislativo que barganham votos e posições em troca de liberação de verbas que alimentam curais e abatedouros eleitoreiros, enquanto ovelhas morrem a míngua em filas de hospitais sucateados.

E os versos derradeiros do poema de Eduardo Alves da Costa, estes ignorados pelos muros, bocas e camisetas, contagiam pelo peito.

No silêncio de meu quarto
a ousadia me afogueia as faces
e eu fantasio um levante;
mas amanhã,
diante do juiz,
talvez meus lábios
calem a verdade
como um foco de germes
capaz de me destruir.

Mas, no âmago a desesperança se esvai, pois, no movimento do tempo, a página seguinte revela o poeta amazonense Thiago de Mello nos animando com sua Madrugada Camponesa.
Madrugada camponesa,
faz escuro ainda no chão,
mas é preciso plantar.
A noite já foi mais noite
a manhã já vai chegar.

Não vale mais a canção
feita de medo e arremedo
para enganar solidão
Agora vale a verdade
cantada simples e sempre
agora vale a alegria
que se constrói dia a dia
feita de canto e de pão.

Breve há de ser
sinto no ar
tempo de trigo maduro
vai ser tempo de ceifar

Já se levantam prodígios
chuva azul no milharal,
estala em flor o feijão
um leite novo minando
no meu longe seringal.

Madrugada da esperança
já é quase tempo de amor
colho um sol que arde no chão,
lavro a luz dentro da cana
minha alma no seu pendão.

Madrugada Camponesa
faz escuro (já nem tanto)
vale a pena trabalhar
faz escuro, mas eu canto
porque a manhã vai chegar.

Mariana Moreira

Mariana Moreira

Professora Universitária e Jornalista

Contato: altopiranhas@uol.com.br

VÍDEO: Psicologia no Ar recebe diretores e psicóloga de organização que promove cidadania em Cajazeiras

NOVIDADES

Xeque-Mate visita lançamento do novo plano da Eletrosorte, que firmou parceria com gigante dos seguros

FUTEBOL DE CAJAZEIRAS

VÍDEO: Dirigentes e ex-jogadores relembram histórias marcantes do Duque de Caxias, que completou 50 anos

VÍDEO: Programa de rádio que é sucesso na região de Campina fecha parceria com emissora de Cajazeiras

Mariana Moreira

Mariana Moreira

Professora Universitária e Jornalista

Contato: altopiranhas@uol.com.br