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José Antonio

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Ariano Suassuna e Cajazeiras

27/07/2014 às 20h52

Tive o privilégio de conhecer o escritor e poeta paraibano Ariano Suassuna, em 1968, em Recife, quando fui seu aluno num curso de extensão cultural, realizado pelo Curso de História da Universidade Católica de Pernambuco. Foi paixão à primeira vista e desde então fiquei com a liberdade de freqüentar o seu escritório de trabalho e o vi escrevendo o romance a Pedra do Reino e também fui por algumas vezes à sua residência para conversar sobre cultura e como a comida da pensão não era lá muito boa, sempre aproveitava a mesa farta de dona Zélia.

Acompanhei suas ações em favor da cultura brasileira, principalmente o Movimento Armorial, lançado no Recife, quando assisti, em 18 de outubro de 1970, o concerto “Três Séculos de Música Nordestina – do Barroco ao Armorial”, com uma exposição de gravura, pintura e escultura e o que mais me empolgava era o setor musical. Quando tinha conhecimento que ia dar uma palestra/conferência, lá estava eu sentado na primeira fila.

Consegui trazer Ariano Suassuna a Cajazeiras, no ano de 1969, para proferir uma palestra num evento cultural realizado pela Associação dos Universitários de Cajazeiras (AUC) e o auditório do fórum, que era no primeiro andar da prefeitura, ficou completamente lotado e como sempre deu um verdadeiro show, explicando como se inspirou para criar os personagens do seu livro “O Auto da Compadecida.

Em Cajazeiras, passamos quase todo o dia percorrendo as ruas da cidade e me lembro que ao passar em frente onde funcionou a prefeitura de Cajazeiras, até o ano de 1954, na Rua Padre Rolim, se encantou com a arquitetura do prédio e sinalizou: “aqui deveria ser instalado o Museu do Couro”. Vale lembrar que no frontispício do prédio tinha o símbolo da República, construído em alto relevo, que teria levado meses para ser concluído, que o tornava mais bonito ainda. Este monumento histórico de nossa arquitetura foi destruído para dar lugar a uma empresa telefônica que se instalou em nossa cidade e é hoje onde funciona o IPEP. Outra casa que o deixou impressionado foi onde hoje funciona a casa de peças de Assis, em frente a rodoviária velha, que tinha o estilo de um casarão de fazenda, hoje também completamente reformada. 

Ariano, por onde andava, procurava indicar caminhos para a divulgação e preservação das nossas tradições e não o foi diferente com relação a nossa cidade, quando nos sugeriu a criação de um “Museu do Couro” e quem sabe num futuro não tão distante esta sugestão venha a se tornar uma realidade?

No dia seguinte da palestra levei-o, como ele havia nos pedido, à Fazenda Acauã, relicário de suas memórias e que havia pertencido a sua família e que sua mãe foi obrigada a vendê-la depois da morte de seu pai no Rio de Janeiro. E me lembro que fomos numa camioneta de meu pai e na hora de embarcarmos nos deparamos com Ariano subindo na carroceria para viajar. Foi muito engraçado e até difícil para convencê-lo de ir na “boléia”.  

Em 1981, retornando ao Recife, fui seu aluno no Mestrado de História, da Universidade Federal de Pernambuco, onde lecionava a disciplina Cultura Brasileira, uma vez por semana, durante toda uma tarde. Nenhum aluno perdia suas aulas. Encantavam-me a sua sabedoria, senso de humor, simplicidade e humildade.

Foi através de Ariano que aprendi o quanto tem de riqueza a cultura brasileira e o admirava pela defesa que ele fazia de todas as nossas tradições e desenvolveu em mim o orgulho de ser nordestino. 

Tenho anotado em meus alfarrábios muitas frases famosas ditas por ele em suas conferencias e destaco algumas delas: “em redor do buraco tudo é beira”; “a tarefa de viver é dura, mas fascinante”; “que eu não perca a vontade de ter grandes amigos, mesmo sabendo que, com as voltas do mundo, eles acabam indo embora de nossas vidas”; arte pra mim é missão, vocação e festa”; “eu digo sempre que das três virtudes teologais, sou fraco na fé e fraco na qualidade, só me resta a esperança”.

Ariano, que foi para nós um exemplo de cidadania, temos o dever, como paraibanos, de reverenciar o brilhantismo de sua existência e a grandeza de sua obra. E a morte, como ele mesmo narrava ser “acidente de percurso”, não arrasta consigo a sua imortalidade, porque ele nasceu para ser eterno.
Viva e muitas palmas à eternidade de nosso Ariano, que já deve estar se apresentando para ser julgado, num cenário igual ao do julgamento de João Grilo, o mais imortal dos personagens do Auto da Compadecida e com certeza ganhará a eternidade dos céus. (Ariano Suassuna *1927 +2014)

Carta a Ariano
O ator Matheus Nachtergaele, que fez o personagem de João Grilo, em uma “Carta para Ariano”, escreveu: “Quem te escreve agora é o Cavalo do teu Grilo. Um dos cavalos de teu Grilo. Aquele que te sente todos os dias, nas ruas, nos bares, nas casas”. “… O Grilo colocou em mim rédeas de sisal, sem forçar com ferros minha boca cansada. Sentou-se sem cela e estribo, à pelo e sem chicote, no lombo dolorido de mim e nele descansou. Não corria em cavalgada. Buscava sem fim uma paragem de bom pasto, uma várzea verde entre a secura dos nossos caminhos…” “… Você Ariano, e teu João Grilo, me levaram para onde há verde gramagem eterna. Fui com vocês para a morada dos corações de gente daqui desse país bonito e duro…”   
 

José Antonio

José Antonio

Professor Universitário, Diretor Presidente do Sistema Alto Piranhas de Comunicação e Presidente da Associação Comercial de Cajazeiras.

Contato: altopiranhas@uol.com.br

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José Antonio

José Antonio

Professor Universitário, Diretor Presidente do Sistema Alto Piranhas de Comunicação e Presidente da Associação Comercial de Cajazeiras.

Contato: altopiranhas@uol.com.br