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Francisco Cartaxo

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Memórias do padre Raymundo Honório Rolim (2)

31/08/2014 às 13h11

Dá gosto ler “Vida e missão atropeladas”, livro do padre Raymundo Honório Rolim. Ele trata da felicidade e das angústias do menino criado no mato, do jovem seminarista e do vigário. Depois de estafante viagem de três dias, o matuto do sítio Vale Verde chega ao Seminário de João Pessoa, carregado de imagens idealizadas de sua nova casa, ainda deslumbrado com fotos de outros seminários. Foi um choque. 
O que “deveria ser um momento fantástico, não foi. (…). Nada mais terrível que o contraste entre o sonho e a realidade. Foi um momento inexplicável de horror, que marcou profundamente o destino daquele candidato à vida consagrada”, escreve ele com uma franqueza cruel. E tem mais. Guiado por um seminarista veterano, ele, adolescente afeito à liberdade nos largos e luminosos espaços rurais de Cajazeiras, foi conhecendo as dependências do Seminário, as capelas, a biblioteca, os corredores sombrios do casarão secular, até chegar ao dormitório, onde vê sua “cama velha de ferro que parecia um engenho banguê”. O colega ia lhe explicando a vida do internato: “o silêncio, os horários, as refeições, os estudos, as orações, tudo dentro de um esquema rígido, inalterado”. E lhe avisou: 

– “Hoje vai começar o retiro”.

– “O retiro? O que seria o retiro?” Indaga-se o espantado jovem cajazeirense. 

“Naquela mesma noite, começou o tal retiro”, e prossegue a narrativa de um realismo de fazer inveja, “Aqueles dias se alongaram por força daqueles exercícios de piedade enfadonhos e quase sem fim. As pregações eram feitas por um frade velho, barbado, sobre os temas escabrosos: morte, juízo, inferno, paraíso, deixando os novatos apavorados. E em vez de atraí-los para a conversão, alimentava o desejo de sumir, voltar para casa.” E o novato como reagiu a essas tentações? “Segurou a barra: nada de correr com medo, dando uma de frouxo”. 

Palavras de sertanejo corajoso…

Ordenado padre, Raymundo Honório rodou por dezenas de paróquias e capelas da diocese de Cajazeiras. Em Brejo do Cruz, passou dez anos, ajudou a reabrir um colégio, acumulou funções paroquiais em outras cinco cidades, rodou muitos quilômetros por estradas vicinais perdendo-se vezes sem conta… Tudo vai narrado com a simplicidade própria de seu jeito. Aqui e acolá, omitiu nome para resguardar personagens, como o de um padre que, por confessar uma senhora casada, foi assassinado pelo marido ciumento, em Conceição, cidade com fama de violenta, fama, aliás, constatada por ele. Certo dia, indo celebrar num povoado, ele deu carona a elementos de milícias armadas. Ao entrarem no velho jeep do vigário, “os capangas começaram a falar de violências que teriam praticado”. Uma senhora que estava no carro se sentiu mal com aquela conversa. Padre Raymundo reclamou, mas os caras nem ligaram: “a boca é nossa e a gente coversa o que quer”. O sacerdote Brecou o veículo e disse:

“O carro é meu e eu carrego quem eu quero e agora desçam. E os valentões desceram mesmo.”

Padre Raymundo Honório Rolim é assim. Foi pároco, professor e diretor do Colégio Diocesano Padre Rolim e docente do Colégio Estadual Crispim Coelho. Recorda episódios interessantes de sua vida e das comunidades por onde andou, narrados de modo simples, o que faz da leitura da “Vida e missão atropeladas” um exercício proveitoso a quem se disponha a viajar na companhia de um homem sério e destemido.

Francisco Cartaxo

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Contato: cartaxorolim@gmail.com

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