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Francisco Cartaxo

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Mestre João Ubaldo Ribeiro

27/07/2014 às 20h44

A gargalhada era ouvida à distância. No rosto largo o riso intermitente, a voz grave, muito grave, os olhos quase fechados quando ria. Assim eu conheci João Ubaldo na Faculdade de Direito da UFBA, quando me transferi de Fortaleza para Salvador, ele prestes a concluir o curso de ciências jurídicas e sociais. Ainda estudante, exercia o jornalismo diário, em coluna mesclada de humor e política. Nessa época, o ficcionista já trabalhava seus textos, escrevia, reescrevia, ao contrário do displicente Jorge Amado, que apenas escrevia. 

O sucesso de João Ubaldo começou um pouco mais tarde, depois da publicação, em 1971, da novela Sargento Getúlio, três anos após estrear com Setembro não tem sentido. Talvez João Ubaldo não emprestasse a Sargento Getúlio o valor literário atribuído por muitos críticos e leitores, entusiastas da vertente regionalista da ficção brasileira. Puserem-lhe esse carimbo, regionalista, mais tarde desbotado por outras obras de arte, escritas com tons de forte universalidade.

Difícil era associá-lo ao compenetrado grupo de privilegiados mestres e doutores da UFBA, que representava na Bahia a modernidade acadêmica, detentora de avançados conhecimentos, de inovadoras técnicas de gestão empresarial, quando o Nordeste despertava, sob a égide da Sudene e do BNB, para os rigores da formulação de projetos técnicos, em substituição ao improviso dos empreendedores intuitivos até então aqui prevalecente. João Ubaldo, mestre em Ciência Política, ensinava essa disciplina na UFBA. Seu olhar, porém, enxergava muito além de suas lentes de fundo de garrafa. E os ouvidos escutavam nas vozes da rua a alma do povo, em longas e habituais conversas de boteco em Salvador e, sobretudo, na Ilha de Itaparica. A enclausurada vida acadêmica, embora cheia de exibicionismo, ficou para trás. Graças a Deus! Liberto das amarras, João Ubaldo derramou em páginas inesquecíveis fortes emoções, expressas com superior qualidade, na voz de personagens criados a cada novo texto ficcional. 

E foram muitos. Romances, novelas, contos e crônicas. Além dos livros citados, mais estes: Vila real,Viva o povo brasileiro, O sorriso do lagarto, O feitiço da Ilha do Pavão, Livro de histórias, Diário do farol, A casa dos budas ditosos, O albatroz azul e outros. Entre estes, Política: quem manda, por que manda, como manda. Um manual prático de ciência política, escrito sem o hermetismo da linguagem acadêmica que ele decifrara no mestrado de Administração e Ciência Política, da Southern California University. 

Alguns livros ficarão para sempre. 

Viva o povo brasileiro e Sargento Getúlio, por exemplo, devem arrastar outros. O sorriso do lagarto, escrito na década de 1980, contém demorada cena de relação homossexual masculina, entre maduros personagens da elite, dando o que falar… A exuberância erótica, porém, emerge com vigor em A casa dos budas ditosos, no qual ele escancara o pecado da luxúria usando como protagonista uma senhora idosa, que recorda travessuras sexuais, tudo narrado em linguagem literária construída por um mestre da escrita. 

João Ubaldo é imortal. Não por ter envergado o fardão da Academia Brasileira de Letras, mas pela qualidade de sua obra literária. E o conteúdo das mensagens. O que não sucede com os Marco Maciel e os Sarney da vida, que são imortais em função de… de… Deixa pra lá. 

Francisco Cartaxo

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