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Réquiem ao velho casarão

14/06/2017 às 20h06 • atualizado em 14/06/2017 às 20h07

Por entre suas grossas paredes ainda ecoavam gritos e risos infantis de crianças de outrora. Atrás de portas e cortinas se encantavam suspiros e sonhos de sinhazinhas ingênuas esperando garbosos cavalheiros. O piso de mosaicos coloridos revelava a posição social de seus proprietários. Na sala de estar ainda pairava no ar sons de prosas, gargalhadas, cheiros e névoas de cigarros desfiados de homens decidindo negócios e sortes de gentes e bichos. Da cozinha, murmúrios de senhoras se misturavam com temperos e lamentos femininos enquanto, de lampejo, uma preta velha cruza a soleira com quitutes e rezas.

Sempre tive fascínio por casarões antigos. Atraem-me suas rugas, dobras e histórias sutis que deslizam por reentrâncias e silêncios como brisas suaves que enrodilham leves e secas folhagens de verão. Causa-me deslumbramento a criatividade humana em adornar beirais, frontispícios. Inebria-me grossas paredes e delicados traços. Causa-me forte impressão a visão dessas construções. Invade-me sempre um sentimento de alguém me espreitando por uma fresta de janela ou por entre trabalhadas treliças de pesadas e maciças portas. Alguém a querer revelar-me segredos de camarinhas ou segredar escândalos e desgraças familiares.

E o antigo casarão se apresentava imponente no alto de uma suave colina. Pesados portões de ferro fundido adornavam sua entrada. A sensação de abandono se expressava no mato que crescia abundante e aleatoriamente por entre espaços que, outrora, abrigaram roseirais e pés ligeiros de meninos em folguedos pueris. De uma velha árvore, bentevis e galos de campina entoavam melodiosas canções de tristeza e saudades. A noite uma tênue luz vazava por entre portas entreabertas revelando a presença de seu derradeiro morador. Um homem pujante, de voz e gestos arrebatadores, que reunia multidões na perseguição de uma esperança impossível em tempos onde esperar representava perigo. Um homem que, em sua solidão de moribundo enfermo, recebia o imaginário acalanto da mãe morta há anos. Uma mãe possível apenas em sonhos, a lhe aninhar no colo e embalar o sono tumultuado pela enfermidade.

Mais tarde o velho casarão desabitado foi criminosamente incendiado. As labaredas, com seus tentáculos poderosos e avassaladores, faziam arder a madeira do teto, o antigo mobiliário, portas e janelas. Entre nuvens de densa fumaça emergiam gritos e suspiros de ontens. No rescaldo apenas tortas paredes enegrecidas pela fuligem. Em um canto qualquer de uma sala uma velha fotografia chamuscada revelava olhos buliçosos como a lacrimejar a desditosa sorte de quem, no passado, resumiu opulência.

E agora, a truculência da máquina reduz tudo ao nada. Por trás dos robustos muros de tijolos batidos apenas terra aplainada pela lâmina insensível de quem, diferente de mim, vê lucro e negócio onde vejo beleza e história.
Do antigo casarão amareladas fotos e redemoinhos de passados.
Ou, apenas distintas janelas da realidade.

Mariana Moreira

Mariana Moreira

Professora Universitária e Jornalista

Contato: altopiranhas@uol.com.br

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Mariana Moreira

Mariana Moreira

Professora Universitária e Jornalista

Contato: altopiranhas@uol.com.br