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Mulheres da Paraíba: árbitra de futebol vira resistência contra o machismo

Flávia Renally atua como auxiliar de arbitragem. Ela sofre com os preconceitos e as cantadas, mas avisa: "o desafio me move, a vontade de representar a minha classe".

Por Priscila Belmont

08/03/2017 às 16h25

Paraibana reclama de uma realidade em que as pessoas em geral nunca vão achar as mulheres boas o suficiente (Foto: Raniery Soares / Paraíba Press)

Cantadas, olhares tortos, provocações e concorrência desleal. Estas são algumas barreiras que Flávia Renally precisa vencer em seu dia a dia profissional. Ela é árbitra de futebol, atua hoje como auxiliar de arbitragem, e tenta exercer seu ofício da forma mais correta possível, mas sofre com o preconceito de quem acha que este é um trabalho predominantemente masculino. A jovem de 24 anos exerce o ofício desde 2013, mas lamenta as agressões e as desconfianças à sua capacidade dentro de campo apenas pelo fato de ser mulher. Na verdade, ela diz que sofre preconceito até mesmo de seus colegas de profissão.

Os árbitros, em geral, são alvos constantes de críticas pesadas por parte das torcidas. Ninguém escapa. Mas a coisa fica mais grave quando uma mulher está em campo tomando decisões. Pois elas são sempre obrigadas a lidar frequentemente com os ataques.

Flávia admite que, apesar de tudo, tenta tirar algo positivo das avaliações que os torcedores fazem. Se errou, tenta acertar na próxima. Mas diante de tanto sexismo, desabafa:

– Não dá para ensinar respeito e educação para todo mundo. Os homens lhe veem como um “ser diferente” no meio deles. Ainda não são tão acostumados com a presença das mulheres. Eles acabam sempre sexualizando tudo – lamentou.

Dentro do núcleo de arbitragem, Flávia relata que no início percebeu alguns olhares desconfiados, seguidos de comentários como “será que ela é boa?” ou “devemos investir nela?”. As dúvidas, segundo ela, não aconteceriam se fosse um homem querendo se firmar na profissão.

Apoio da família

Se fora de casa Flávia já passou por situações constrangedoras por ser uma mulher que vive no meio do futebol, em casa ao menos ela encontrou maior apoio. E diz que uma pessoa em especial foi essencial para ela não desistir. Flávia explica que entre um e outro familiar que se mostrava contra a decisão dela seguir na arbitragem, o seu pai, o árbitro amador Gilmar Faustino, a incentiva para que ela seguisse adiante em seu sonho.

Ela diz que nunca cogitou deixar a profissão por causa de preconceitos, mas chegou a se questionar se teria “estômago” para viver algumas situações. Sempre consciente de todo o machismo que ainda é presente no futebol, Flávia conta que o que a move é o desafio de representar as mulheres em um espaço ainda tão masculino.

– Eu sempre fui consciente de que estaria no meio de cabeças machistas, de olhares tortos, de um mundo de concorrência totalmente desleal. Quando comecei realmente a viver dentro deste ambiente, muitas vezes me questionei se eu conseguiria lidar com algumas situações. Mas o desafio me move, a vontade de representar a minha classe, de mostrar que é possível, que a gente pode lutar pra ter um mundo diferente e que somos capazes de ser o que quisermos – disse.

Para as mulheres que desejam seguir na arbitragem, mas que a evitam por medo dos preconceitos, Flávia aconselha que sigam os seus sonhos:

– No caminho vai sempre ter muitas dificuldades, muitas barreiras. Muitas vezes você vai sentir raiva, mas essas mesmas raivas vão lhe jogar para a frente e te impulsionar a querer sempre mais. E nunca dependa das aprovações dos outros. Nunca vão te achar boa o suficiente, mas tenha sempre consciência de sua capacidade – finalizou.

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