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Francisco Cartaxo

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A filha de seu Raimundo

16/03/2015 às 14h26

Ele organizou-se na varanda do meu apartamento com pedaços de madeira, cavalete, serrote, martelo, lixa, cola e tudo o mais que marceneiro usa. Da sala de estudo, onde costumo passar boa parte do dia (e da noite também), eu o surpreendia, vez por outra, olhando para mim com o rabo do olho. Aí ele tirava a vista e se concentrava em sua tarefa. Aquilo me intrigava. Seu Raimundo não é de embromar, nunca foi remanchão. Há muitos anos me presta serviço, sempre que eu necessito consertar móveis, substituir ou fabricar um novo. Como no caso da velha estante que quebrava um galho fazia um tempão. Depois de alguns aborrecimentos com estragos em livros e documentos mal guardados, resolvi contratá-lo para dar um jeito no “gabinete”, como chama meu filho em tom de gozação. 

Seu Raimundo leva vários dias na preparação de todas as peças de madeira a fim de encaixá-las nos lugares certos, com o mínimo de parafuso, prego e dobradiça. Como o leitor pode imaginar, faz trabalho meticuloso, de marceneiro. Aliás, muito parecido com o de ourives. E semelhante ao que eu faço. Seu Raimundo ajusta peças de madeira, eu procuro a palavra certa para encaixar no texto. Ele vai polindo daqui e dali, eu cato o adjetivo apropriado. Um trabalho de ourivesaria. É ou não é? Ele me observa sem dar uma palavra. Só olha. 

No dia seguinte, depois de horas na mesma pisada do dia anterior, ele fica ao lado da mesa onde está o micro computador e fala:

– Doutor, me desculpe, mas só em olhar o senhor aí no meio de tanto livro me dá dor de cabeça.

– Por que, seu Raimundo?

– Desde ontem que espio o senhor aí… escreve na máquina, pega um livro, abre a pasta, lê um pedaço e aí volta pra máquina, larga ela pra lá e pega essa outra miudinha, mexe, mexe e volta pra maiorzinha… Sei não, mas se eu tivesse no lugar do senhor, eu não aguentava nem duas hora…

Parou de falar, a espera de uma explicação. Li no seu olhar a preocupação e ansiedade e angústia. Agrura, a bem dizer. Agruras. Palavra difícil até para pronunciar! 

– Mas seu Raimundo, é meu trabalho, há muitos anos faço isso… O aperreio é o prazo para entregar. Prazo de contrato, da mesma forma que você tem prazo para aprontar esta estante… Não é verdade? É a mesma coisa…

– A mesma coisa? É nada, doutor, o senhor tá é doido, me desculpe falar desse jeito… Ora, eu só tenho o trabalho de deixar tudo certo pra encaixar uma peça na outra no tamanho certo… Preciso usar a cabeça? Em nada, o senhor não, pelo que eu reparo desde ontem… Mas, hómi, quer saber mesmo, eu aí no nesse lugar, arre, eu já tinha tomado pra mais de dez comprimido e a dor de cabeça ainda num passava…

Dois dias depois, seu Raimundo, já mais à vontade, mal botou os pés na varanda foi logo dizendo que, quando se levantou de madrugada para ir ao sanitário, a filha, professora municipal, ainda estava acordada.

– Trabalhando assim que nem o senhor, quer dizer, quase, pois ela resmungava igualzinha a mãe… Aí, eu perguntei, minha filha, você num tá com dor de cabeça não?

– Não pai, não pai, eu tô é com raiva. A gente se mata pra ensinar, estuda, prepara aula, se lasca na sala, pede silêncio, ameaça o aluno, dá grito… e quando vai corrigir as provas só encontra asneira, porra! Isso é vida, pai?

– Ah, filha, se é assim, é pior do que sofrência… 
 

Francisco Cartaxo

Francisco Cartaxo

Contato: cartaxorolim@gmail.com

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