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A herança da mãe adotiva

05/02/2016 às 20h32 • atualizado em 11/02/2016 às 01h14

Por Mariana Moreira

Um intenso sentimento de saudade é a mais verdadeira expressão do vazio que marca tua ausência. Um sentimento construído e instituído na convicção de que essa ausência será definitiva e que nos resta apenas o legado de saudades, de gestos manifestos, de afetos partilhados. E como esse legado é sincero quando os laços de maternidade foram configurados por livre opção, e não por determinismos biológicos. Foram alimentados por ações espontâneas de colos que aconchegavam cansaços e incertezas, de alimentos divididos com o sabor da amizade.

Em sua casa fui chegando levada pela amizade dos seus filhos Josival e Adjamilton. De forma encabulada fui vencendo a timidez com a sincera acolhida. E a casa da Rua Santo Antônio passou a ser a segunda casa materna. Aquela aonde, mesmo chegando sem prévio aviso, tinha um prato posto à mesa, um cafezinho fresco que atiçava a prosa, uma cama macia e fofa que vencia o sono de muitas noites cansadas da lida jornalística. E, assim, pelos idos dos anos de 1980, fui conhecendo Dona Zilmar e, sem nenhuma imposição, a metamorfoseando em mãe adotiva que, sem concorrências ou disputas, ganhava a admiração que, legítima, devotava a minha mãe Betina.

Uma admiração que crescia quando conhecia a sua bravura e determinação em sair do Xique Xique para que os filhos prosseguissem o estudo em Cajazeiras, desafiando a ordem natural das coisas que prescrevia ser suficiente aos filhos dos pequenos agricultores apenas o conhecimento precário do ler, escrever e fazer as quatro operações. Na cidade, tinha sempre a docilidade do olhar, o afago da voz mansa e a inabalável fé em Deus e na proteção de Nossa Senhora como ferramentas de superação das dificuldades.

Uma fé que lhe fortalece mesmo quando a vida lhe prega peças que põe a prova sua resistência e pertinácia. Assim foi com a morte do filho Vando. A encontro serena, embora os belhos olhos esverdeados ofuscados pelas lágrimas que revelavam o coração materno transpassado pela dor.

Mesmo assim, não se descuida dos cuidados maternos, me acolhendo com uma prosa rasa e gostosa entremeada por um cafezinho que aquecia a alma e entrançava carinhos.

Seu sorriso como expressão de sua autêntica gentileza volta, lentamente a ser sua mais verdadeira marca. E como esse sorriso encantava. Anos depois, o vejo se expressar em um final de tarde quando a visito em sua nova casa. Como a buscar forças nas origens, volta a morar em uma pequena chácara próxima a cidade. Ali me revela que acorda com os sons do cantar dos galos e a sinfonia dos pássaros antecipando o dia. Mostra-me a pequena capela em forma de gruta que o filho Josival lhe presenteara, a erguendo na entrada da granja, e onde uma imagem de Nossa Senhora de Fátima ouvia, ao entardecer, suas súplicas, preces e agradecimentos organizados em torno dos terços rezados com a devoção verdadeira de filha crente e temente.

E a saudade me traz uma certeza: de que as mães, Zilmar, Betinas, Virgem Santíssima, trazem um elemento que as agrega e aproxima. Todas são movidas pelo estranho combustível do amor. É este amor que, muitos encaram como utopia, que trago como a mais sensível herança que minha mãe adotiva Zilmar me legou em testamento de vida e de verdade.

Mariana Moreira

Mariana Moreira

Professora Universitária e Jornalista

Contato: altopiranhas@uol.com.br

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Mariana Moreira

Mariana Moreira

Professora Universitária e Jornalista

Contato: altopiranhas@uol.com.br