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Antonio da Bodega

17/03/2017 às 16h58

Aos da minha geração, sobretudo os que tiveram uma infância rural, a figura do dono da bodega é ingrediente indispensável de vivências e memórias. A bodega, e seu proprietário, compõem um espaço que extravasa a mera dimensão geográfica. Este espaço traz uma significação cultural, política, econômica, de status. A bodega é referência como lugar de encontro, de reunião social, de sociabilidades e, para não se tornar exceção, ponto preferido e obrigatório de pinguços e desocupados sempre a cata de algum incauto para financiar uns goles de pinga ou para interagir com umas troças mais apimentadas.

Normalmente, o dono da bodega também é o dono do único veículo da ribeira. Sempre um jipe que, por sua rusticidade, sobrevive as trilhas esburacadas desses rincões. O jipe e seu dono, portanto, são presença obrigatória nas celebrações e festas de batizado, casamento, aniversário. E também nas circunstâncias menos amenas, como velórios.

A modernidade que transforma trilhas em estradas trafegáveis, que encurta distâncias e reduz os muros entre o rural e o urbano, acaba por metamorfosear as bodegas em supermercados. E também em seus donos em pessoas comuns.

Alguns remanescentes sobrevivem como amareladas figuras de costas para o presente.

Uma destas figuras é Antonio da Bodega. Seu sobrenome poucos conhecem. Afinal, é apenas e tão somente Antonio da Bodega. E isto basta. E como determina a tradição Antonio da Bodega tem um carro. Não mais um jipe, mas um carrinho mais moderno. De segunda mão, é claro!

A sua bodega, situada as margens da rodovia, serve como referência para orientar estrangeiros e como lugar de encontro do trecho. Nas tardes de sábado e manhãs de domingo, entre tragos de aguardente e baforadas de cigarro manso, muitos atualizam as novidades da comunidade.

O carro de Antonio da Bodega também, logo cedo, perdeu a configuração de uso exclusivo seu e de sua família. Ele, com uma recorrência que desconhece madrugadas, horas de repouso e sono, intervalos de refeições, é solicitado pra socorrer um doente para o hospital, uma gestante em trabalho de parto para a maternidade, como alguns bebes mais apressados ameaçando nascer no banco do carro e transformar seu motorista em parteiro. Seu carro também é sinal de alegria, alvíssaras, mas também tristezas e saudades para muitos. Ele está sempre sendo solicitado para buscar ou deixar pessoas no Aeroporto de Juazeiro do Norte. Entre alegrias de reencontros e tristezas de partidas Antonio da Bodega é ingrediente necessário de histórias e vidas.

Por muitos anos ele foi uma espécie de motorista oficial de minha mãe. As viagens mensais para Cachoeira dos Índios para receber a aposentadoria, as festas de aniversário, as missas da comunidade, os velórios de parentes e conhecidos eram realizadas sempre com Antonio da Bodega. Sobretudo, aquelas em meios de semana. Já elaboravam uma agenda mensal de viagens a ser cumprida, e cujo roteiro era programado de maneira alegre e com farta cumplicidade.

Até sua morte, em 2013, minha mãe construiu com Antonio da Bodega uma relação que extravasou as fronteiras da formalidade comercial. Eram quase que mãe e filho trocando confidências e segredando histórias, angústias, medos, travessuras.

A morte de Antonio da Bodega, no último dia 10 de março, encerra um ciclo de histórias e configurações culturais e sociais. Sua bodega ainda abre as portas. Nas prateleiras apenas garrafas de aguardente e, ousadia da modernidade, uísque e outras beberagens.

Também muitas saudades e os últimos vestígios de um tempo que se esgueira no passado se transfigurando em ontem.

Mariana Moreira

Mariana Moreira

Professora Universitária e Jornalista

Contato: altopiranhas@uol.com.br

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Mariana Moreira

Mariana Moreira

Professora Universitária e Jornalista

Contato: altopiranhas@uol.com.br