Francisco Cartaxo
Francisco Cartaxo - cartaxorolim@gmail.com

Escritor, filiado União Brasileira de Escritores/PE, ex-secretário de Planejamento da Paraíba, ex-secretário-adjunto da Fazenda de Pernambuco, ex-secretário-adjunto de Planejamento do Recife, Articulista semanal do jornal Gazeta do Alto Piranhas, de Cajazeiras, Consultor associado à CEPLAN, Consultoria Econômica e Planejamento.

08/01/2017 às 13h41

Michel Temer não falou de corrupção

O presidente Michel Temer esqueceu o tema combate à corrupção. Em pronunciamentos oficiais no final do ano tentou demonstrar firmeza de propósitos no encaminhar soluções para os problemas angustiantes do povo, como desemprego, recessão, aumento da pobreza, alargamento das desigualdades sociais. Mirou o futuro mais do que o passado. Por isso, abordou questõesque podem mudar os rumos da economia do País: reforma tributária, da previdência, trabalhista. Mostrou-se comedido ao falar de mudançasnas regras políticas, insinuou, tratar-se de assunto para o Congresso Nacional.

Calou-se a respeito do combate à corrupção.

Também pudera, me disse um amigo, Temer foi forçado a demitir seis auxiliares suspeitos de envolvimento direto em processos investigativos de malfeitorias, ora, ora,ele próprio já foi citado 43 em depoimentos de delatores… Temernão é bobo para meter o dedo em ferida ainda sangrando. Concordei com o raciocínio do meu amigo, embora não se justifique a mudez presidencial diante do fato mais significativo da história brasileira recente. Não me refiro apenas à Operação Lava Jato,mas a todas as outras de dimensão nacional, sem esquecer, é claro,as pequenas intervenções circunscritas geograficamente, como a Operação Andaime, nossa conhecida.

Por que Temer deveria falar disso?

Porqueas investigações não são apenas caso de polícia. Elas se vinculam à raiz da crise política. E qualquer reforma nesse campo, portanto, passa pelas revelações dos mecanismos de corrupção, escancarados nos depoimentos de autores de crimes de formação de quadrilha, lavagem de dinheiro, improbidade administrativa, corrupção ativa e passiva, sonegação fiscal e conexos. Empresários,executivos de empresas privadas e públicas, doleiros, servidores públicos, políticos presos ou investigados expõem com clareza as profundas relações de promiscuidade entre o público e o privado.

Vejamos um exemplo emblemático.

Cláudio Melo Filho, lobista a serviço do grupo Odebrechtjunto ao Congresso Nacional, destrinchou, com autoridade de partícipe, os mecanismos de acertos e distribuição de propinas a deputados, senadores, ministros, governadores e outras autoridades públicas. Para quê? Em retribuição aos serviços prestados, inclusive na formulação de Leis, edição de Medidas Provisórias,apresentação de projetos de lei ou de emendas que beneficiaram diretamente àquele grupo. Pasme o leitor: ele revelou a estratégia do grupo Odebrecht até na sofisticação de investir em parlamentares promissores, com potencial de crescer e influenciar as decisões administrativas relevantes!Outros grupos empresariaisagem do mesmo jeito, em menor escala. Não escapa nenhum. Portanto, trata-se de uma das raízes da crisepolítica brasileira, na medida em que desviam recursos e desvirtuam o voto do cidadão. Temer, presidente, não pode fechar os olhos a essa realidade.

As investigações em curso, a partir de Curitiba, Brasília, Rio de Janeiro, Minas Gerais e outros estados são matéria prima para a reforma política. Vale dizer, mudanças no financiamento de campanha, na formação e funcionamento de partidos políticos, nas regras eleitorais.Os resultados dos trabalhos das operações conjuntas PF, MPF, RF e Justiçafornecem elementos de sobra para redefinir as bases da reforma política. Pois bem, um tema crucial para a sociedade brasileira, como esse, foi deixado de lado pelo presidente Michel Temer nos pronunciamentos oficiais de fim de ano.


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