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Mariana Moreira

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A morte é feminina, a violência também…

05/04/2019 às 08h40

Primeiro semestre teve 32 mulheres assassinadas, em toda Paraíba. Desse total, 17 casos estão sendo investigados como feminicídios. Por Dani Fechine, G1 PB

O crescimento dos casos de feminicídio no país não deve ser explicado como consequência natural do desenvolvimento.
As mortes de mulheres tendo como motivação a sua condição de mulher revela o desenvolvimento de uma mentalidade que, institucionalizada como opção de governo, passa a produzir discursos de ódio como explicações inerentes ao desenvolvimento de uma sociedade. Sociedade onde pobre, preto, favelado, nordestino e, sobretudo, mulher, é percebido e classificado como inferior e, portanto, despido de qualquer merecimento da condição de humanidade.

Sobre as mulheres essa desqualificação ganha ingredientes de variadas matizes, sobretudo, religiosas. Somos origem e fonte de todas as mazelas do mundo. Nossos corpos são, antecipadamente, promovidos ou a relicário de virtudes e, portanto, objeto de veneração. Ou a gênese da perdição que, tendo a “sensualidade”, a “luxuria”, a “devassa” como atributos centrais, consegue turvar qualquer discernimento racional e sensato e arremessar corpos e mentes masculinas no caminho da perdição.

Manter-se casta e virtuosa exige das mulheres a anulação das mínimas condições de vivência da autonomia que se apresenta, nos tempos atuais, como requisito básico ao exercício da dignidade. Ter uma vida que traz como adjetivos a “devassidão”, a “sensualidade”, somente pelo exercício da autonomia do ir e vir, do controle sobre corpos e vontades, da prática do falar e pensar, representa uma heresia, uma agressão às normas que nomeiam e imprimem a marca da inferioridade, da submissão, do silenciar, da subserviência, da servidão ao feminino como se inerente fosse a uma pretensa “natureza e condição femininas”.

Naturalizar o que é cultural resume uma prática fascista que, nos tempos atuais, traduz, em sua plenitude, uma visão de governo e de Estado. Uma visão que, ao arrepio de leis e estatutos criados como mecanismos para combater e prevenir comportamentos violentos, ganha legitimidade quando passa pelo crivo da autoridade governamental. Quando um presidente tem como discurso central de governo o ódio, uma política de armamento, cortes drásticos em investimentos de educação, de pesquisa, de produção de conhecimento, a violência contra a mulher se apresenta e é defendida como natural, sobretudo, contra aquelas que, por essa visão, se classificam como “vadias”, “fogosas”, “pecadoras”.

E assim, a morte de mulheres cresce na mesma proporção que aumentam as estatísticas de mortes violentas e anônimas de favelados, sobretudo, jovens e negros, de moradores de rua, de travestis e populações lgbt. Mortes que, muitas vezes, trazem a explicita autoria dos aparelhos policiais ou de grupos paramilitares que se instituem e funcionam sob a proteção e financiamento de grupos políticos e econômicos legitimamente autorizados.

E, mais uma vez, o poeta Chico Buarque nos faz pensar através de seus versos:

Mirem-se no exemplo daquelas mulheres de Atenas
Vivem pros seus maridos, orgulho e raça de Atenas
Quando amadas, se perfumam
Se banham com leite, se arrumam
Suas melenas
Quando fustigadas não choram
Se ajoelham, pedem, imploram
Mais duras penas
Cadenas.

Mariana Moreira

Mariana Moreira

Professora Universitária e Jornalista

Contato: altopiranhas@uol.com.br

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Mariana Moreira

Mariana Moreira

Professora Universitária e Jornalista

Contato: altopiranhas@uol.com.br