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Edivan Rodrigues

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Atentado ao bispo de Cajazeiras

17/07/2010 às 11h15

Passava de nove horas da noite quando a bomba explodiu no Cine-Teatro Apolo XI. Fora colocada ao lado da cadeira onde dom Zacarias Rolim de Moura costumava ver os filmes que ele mesmo selecionava para rodar no cinema de propriedade da diocese de Cajazeiras. A explosão do artefato espantou a cidade. E continua viva na memória de muita gente. Duas das vítimas morreram dias depois em João Pessoa, para onde foram levadas: o soldado Altino Soares (Didi) e Manuel Severiano. Felizmente o local estava quase vazio. E o bispo? No dia 2 de julho de 1975, portanto, há 35 anos, encontrava-se no Recife, a 600 km do atentado!

Quando pesquisava a história política de Cajazeiras para o livro “Do bico de pena à urna eletrônica”, (Editora Bagaço, 2006), fiquei intrigado com o mistério que envolve aquele episódio ocorrido, aliás, quando a Paraíba era governada pelo cajazeirense Ivan Bichara Sobreira. Limitei-me, então, a resgatar o fato, apoiado em consultas a jornais daquela época, sem tempo nem competência para investigar a fundo o brutal acontecimento que se deu numa terra avessa à violência política. Basta lembrar que história de Cajazeiras só registra um entrevero político mortal, ainda no Império, quando restou assassinado o alferes João Cartaxo, do Partido Liberal, em dia de eleição, no longínquo ano de 1872.

O atentado ao bispo, classificado como ato terrorista, foi envolto em insinuações dirigidas ao então deputado estadual João Bosco Braga Barreto, do MDB. Irrequieto, rebelde, carismático, Bosco manipulava com plena consciência as massas populares sertanejas. Dava trabalho. Por isso, era incômodo ao regime militar. Daí a versão recorrente, segundo a qual o atentado teria sido obra da “linha dura do sistema” com o propósito de imputar a autoria ao jovem político cajazeirense, incriminando-o, e assim aniquilar sua ação política. Lembre-se que na época, o governo do general Ernesto Geisel executava a estratégia da abertura do regime de forma “lenta, segura e gradual”, contra a qual se insurgiam grupos radicais no interior das forças armadas.

Tal versão, aliás, foi abraçada pelo próprio Bosco Barreto que, em 1985, quando residia em Brasília, chegou a anunciar que estava disposto a requerer ao Ministério da Justiça a reabertura das investigações, equiparando o atentado do Apolo XI a episódios terroristas semelhantes, como o do Riocentro e o caso Baumgarten. Bosco não levou avante sua intenção. Ou, se o fez, não encontrou receptividade por parte das autoridades da chamada Nova República, então presidida por José Sarney, que assumira na qualidade de vice-presidente após a morte de Tancredo Neves.

Passados 35 anos, permanece o mistério. Quem colocou a bomba no Apolo XI? Por iniciativa própria ou a mando de quem? Visava-se mesmo eliminar o bispo? Que motivações havia para matar dom Zacarias, um prelado da ala conservadora da Igreja? Que fim levou o inquérito militar que ouviu testemunhas, inclusive o então deputado Bosco Barreto? Até hoje não conheço respostas a essas perguntas.
 

Edivan Rodrigues

Edivan Rodrigues

Juiz de Direito, Licenciado em Filosofia, Professor de Direito Eleitoral da FACISA, Secretário da Associação dos Magistrados da Paraíba – AMPB

Contato: edvanparis@uol.com.br

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Edivan Rodrigues

Edivan Rodrigues

Juiz de Direito, Licenciado em Filosofia, Professor de Direito Eleitoral da FACISA, Secretário da Associação dos Magistrados da Paraíba – AMPB

Contato: edvanparis@uol.com.br

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