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Mariana Moreira

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Lições de mãe

23/11/2014 às 12h46

Os resíduos que nossa experiência de civilizados produz a cada dia assume proporções absurdas. Matéria orgânica, entulhos da frenética necessidade humana de renovar o atual em nome de uma modernidade que, em muitos momentos, rompe a fronteira da sensatez. Um movimento que, no último século, produziu um dos mais deprimentes espetáculos da racionalidade humana: os lixões. Grandes depósitos, a céu aberto, onde são despejados todos os excrementos e todas as inutilidades que os homens foram produzindo no seu ímpeto de se converter em raça superior. Espaços que se metamorfoseiam em local de trabalho e de vida para muitos humanos que partilham e disputam com porcos, ratos, cães, abutres, sobras de alimentos que foram descartados pela arrogância dos abastados que assumem a presunção de considerar a natureza inesgotável e se fartam e esbanjam seus recursos sem a menor sensibilidade com os que gemem de dor e fome.

Reciclar e reutilizar os recursos da natureza e aqueles produzidos pela tecnologia e pelo conhecimento do homem ainda é uma prática bastante incipiente em nosso cotidiano. Os rios contaminados por resíduos sólidos oriundo da atividade agrícola e industrial, os recipientes plásticos que promovem o deprimente espetáculo da confusão dos peixes que consomem sacos plásticos acreditando ser algas marinhas e terminam morrendo por asfixia e contaminação. Os incontáveis casos de seres humanos que tinham como única ração alimentar restos humanos descartados pelo lixo hospitalar.

A natureza que agoniza na insana capacidade do homem para abrir novas fronteiras agrícolas como alternativa para o aumento da produtividade e do lucro enquanto a fome ameaça grande contingentes e transformam milhares de pessoas em fantasmagorias de um espetáculo de horror e irracionalidade. As queimadas e os rebanhos que transformam em pastagens e cifras que enriquecem alguns, grandes áreas de vegetações nativas, expulsando populações tradicionais, destruindo modos de vida, aniquilando dignidade e encurtando os espaços de vida selvagem e de preservação de espécies e gentes.

Reaproveitar é uma maneira saudável de respeitar a natureza. Evoca a lembrança de minha mãe que, sem nenhum conhecimento de ecologia e respeito ao meio ambiente e movida pelo mais genuíno sentimento da necessidade na lida diária para criar e educar seus dez filhos, tinha a prática do reaproveitamento como norma de vida. Assim, pernas de calças de meu pai, pontilhadas por inúmeros remendos e tingidas por nódoas da dura rotina da roça, se transformavam em rodilhas de enxugar mãos e pano de tirar poeira.

As roupas dos mais velhos eram repassadas para os menores apenas com alguns ajustes como forma de mascarar os puídos. Os resíduos descartados da mandioca se transformavam em matéria prima para saborosos cuscuzes temperados com rapadura e coco e preparados em cuscuzeiras de barro.

Porque, então, não usamos o impulso da necessidade para reutilizar os recursos naturais e dá uma chance ao planeta. 

Mariana Moreira

Mariana Moreira

Contato: altopiranhas@uol.com.br

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