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Mariana Moreira

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A alegria se chama Fátima

17/08/2018 às 08h23

A primeira lembrança que guardo de Fátima Moreira é de minha infância quando os seus pais ainda moravam no Bom Jardim. A minha idade precisa se perde nas brumas do tempo. Acompanho minha irmã mais velha, Nininha, para passarmos um dia na casa de Dilça, nossa prima, casada com Maneco, que dividia a vida entre a agricultura e o ofício de barbeiro. Barbeiro que, naqueles tempos, tinha que demonstrar habilidades para não apenas fazer barbas, mas também cortar cabelos. Em muitos domingos assistia papai sair com meus dois irmãos mais velhos, Zé e Manoel, para o ritual do corte de cabelos com Maneco.

Mas, retomando a visita acompanhando minha irmã, guardo a lembrança do motivo: como as duas eram as irmãs mais velhas de suas respectivas famílias, a visita era para a troca de informações sobre marcas e tipos de pontos de bordados. Confesso que não me prendi nas tramas e tessituras da arte dos bordados, dos pontos cruz, das bainhas, dos richelieux. Encantam-me os bastidores, as linhas coloridas, as habilidades demonstradas no manuseio de agulhas. E o dia termina. No retorno, encanta-me ainda um trecho da rodagem onde pedrinhas coloridas, roliças e lisas se mostram ideais para a renovação de meu terno de brincadeira de xibio. Colheita feita, retornamos para Impueiras e, naquela noite, em meus sonhos, a imagem das jovens manuseando bastidores, agulhas e linhas se misturam com pedrinhas coloridas.

Mais tarde, ao vir estudar em Cajazeiras e morar no final da rua Dr. Coelho, reencontro Fátima Moreira e seu pai. Ela, colega de minha irmã mais velha. Ele porteiro do Colégio Estadual. A vida na cidade me revela outros ritmos. Embora ainda brincássemos de xibio, e outros folguedos como mata-mata, academia, não mais encontrei o recanto da rodagem onde as pedrinhas pareciam germinar como babugem nas primeiras chuvas.

Anos depois, na memorável campanha de Zuca Moreira para prefeito de Cachoeira dos Índios, em 1988, reencontro Fátima Moreira. Eu assessora do candidato. Ela a mais animada e alegre eleitora. Nos comícios já chegava cantarolando “Dr. Zuca chegou/ vem com força total…”. Na mão um litro de Mazzille, uma espécie de Martini barato, mas que fazia a alegria de todos. Claro que a ressaca, no dia seguinte, era inominável. Tudo, porém, em nome do prazer de ver o município ter outras possibilidades.

Derrotados nas urnas, – nós e o candidato -, continuamos a fazer a festa a cada reencontro. Fátima Moreira, sempre com sua contagiante alegria, transformava os ambientes mais soturnos em reboliço festivo e diversão. Sempre nestes momentos, na brincadeira, mas, de vera mesmo pra valer, após um efusivo abraço, sapecava ser eu sua “ídola”. Na calçada de sua casa na Dr. Coelho, onde sua família foi morar ainda pela década de 1970, sempre a encontrava com um franco sorriso derramado pelo rosto.

Mas, de repente, e com a rapidez de um tempo que não nos permitiu elaborar a surpresa, ela nos deixa. Sua morte não somente surpreende, mas nos rouba um pouco da alegria da vida.

Naquela calçada não mais te encontramos. E sua ídola se entristece na saudade, mas regozija na certeza de ter partilhado contigo momentos ímpares de alegria e festa.

Mariana Moreira

Mariana Moreira

Professora Universitária e Jornalista

Contato: altopiranhas@uol.com.br

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Mariana Moreira

Mariana Moreira

Professora Universitária e Jornalista

Contato: altopiranhas@uol.com.br