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Mariana Moreira
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A mesma praça

09/02/2018 às 10h20

A família e sua praça se despedem e seguem um rumo qualquer.

Por sua pequenez de um recuo de rua que se forma aleatoriamente, sem qualquer preocupação urbanística, na verdade, a praça não merece esta designação. A praça se resume a alguns maltratados bancos de madeira, com armações de ferro carcomidas, acanhadas árvores e canteiros esfrangalhados onde algumas roseiras teimam em brotar flores que destoam da paisagem árida e abandonada. Um frondoso oitizeiro arranha e consome a paisagem cantando sonoras melodias de bentevis.

Mas o que me atrai na praça, no burburinho de um dia quente de verão sertanejo, é a simplicidade de uma família que, alheia a pressa e a indiferença da cidade, usa sua raquítica beleza como cenário para algumas fotografias. Sem nenhum pudor a mulher se apropria de um cacho de rosas de uma insignificante roseira e, ao lado do marido, faz poses e sonhos como a querer perpetuar, na moderna tecnologia do celular, aqueles momentos de descontração e afetos. O celular é habilmente manuseando pelo filho do casal que, embora de pouca idade, já revela destreza na arte de fotografar com as novas tecnologias.

Uma habilidade que ele expressa no riso estampado no rosto e captado pela selfie a ser imediatamente compartilhada entre amigos e parentes através de redes e outros apetrechos modernos que espalham, na velocidade do instantâneo, momentos de afagos, afetos e, porque não, beleza.

A cidade passa apressada e a família se diverte na tímida praça. Em um canto sacolas e pacotes de compras pacientemente esperam seus donos. Suas identidades não têm relevância. Buzinas de veículos teimam em ousar quebrar a harmonia da cena. Com frequência a família se abraça, compartilha gestos de carinho e cumplicidade que somente as pessoas que amam a vida sabem o sentido e a importância.

São ínfimos instantes. O sinal abre. Uma buzina apressada me desperta para o tempo. A família e sua praça se despedem e seguem um rumo qualquer. Na sombra do oitizeiro corpos rotos, esqueléticos, maltrapilhos e fedidos exalam a poeira de fumaça da derradeira pedra de crack e o dissabor do último trago de aguardente. Lançam seus corpos de trajes andrajos ao nada como a confirmar suas perspectivas de coisa alguma. Apenas continuam suas vidas insignificantes e ameaçadoras a revelia das flores que, maltratadas, insistem em brotar e desabrochar nos desleixados canteiros.

E aquela família que rouba o cacho de rosas rósea da praça para adornar suas lembranças fotográficas se transforma em imagens que se dissipam no ar. A praça e seus moradores de rua continuam alheios ao movimento. Alguns, mais ousados e tangidos pela fome e pela dependência, se atrevem a romper os fechados vidros dos automóveis na cata de algumas migalhas. Outros, apenas espiam de seus assentos improvisados em manilhas e bocas de esgotos.

São apenas os indesejáveis moradores da praça que, por efêmeros momentos, foi cenário de sonhos e vidas

Mariana Moreira

Mariana Moreira

Professora Universitária e Jornalista

Contato: altopiranhas@uol.com.br

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Mariana Moreira

Mariana Moreira

Professora Universitária e Jornalista

Contato: altopiranhas@uol.com.br