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Francisco Cartaxo

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A tristeza de não ser santo

16/12/2019 às 08h10

Coluna de Francisco Cartaxo

Muito cedo, o menino de Belém ganhou o mundo. Agarrado à saia da mãe ou segurando a mão do pai, montado no lombo de jumento ou na boleia do caminhão, Gervásio conheceu Antenor Navarro e Catolé do Rocha. Nas duas cidades presenciou missões de frei Damião de Bozzano, o terror dos casais em pecado (os amancebados terão o fogo do inferno!). E a ele, o garoto de sete anos confessou seus ingênuos pecados infantis. Mas essas coisas não preocupavam o filho de João Adelino, guarda-fios dos Correios e Telégrafos. Piedosíssimo, sem ser beato, rezava o terço duas vezes ao dia. Sua sólida formação religiosa levou frei Damião, muitos anos depois, a ironizar: o pai é mais católico do que o filho padre!

Até aí o mundo era o sertão.

Belém virou Uiraúna. O menino se fez homem e danou-se pelo mundo de Deus. Padre baixinho com andar trôpego, no dizer de Renato Moreira, Gervásio foi muito além da rota Europa, França e Bahia, buscando o sentido da vida. Percorreu os corredores do saber acadêmico; em Roma, aprendeu e ensinou muitas línguas, até mesmo grego e latim. Virou doutor em direito canônico. Leu a Bíblia em diversos idiomas; superou o pai, que lera toda a Bíblia três vezes, quem sabe, para a alegria de sua mãe, Ana Fernandes.

Convocado para o Concílio Vaticano II, dom Zacarias Rolim de Moura leva os padres Sitônio e Gervásio. Lá vai o menino de Uiraúna para as bordas do poder da Igreja. Audacioso, chega a usar a credencial de jornalista, diretor que era do Correio do Sertão, mensário da diocese de Cajazeiras, para infiltrar-se entre as feras. Tempo riquíssimo para sua formação, penso, ao conviver com a diversidade de notáveis figuras, papas e cardeais. Dom Helder Câmara, tido como bispo vermelho, e dom Castro Mayer, afinado com a TFP – Tradição Família e Propriedade.
Tempos difíceis, de posições ideológicas extremadas:

A Igreja do Brasil teve de viver a metade do Vaticano II e mais dezoito anos na ditadura militar, a partir de 1964. Meu desejo era exilar-me do Brasil. Padre novo e entusiasta, tive de viver vinte anos de ministério, debaixo da opressão, vendo a Igreja perseguida, padres, religiosos e leigos colocados na cadeia, torturados, assassinados, alguns sacerdotes expulsos do país. Só defende ditadura quem é “maluco” ou ignorante. Só Deus sabe o que e quanto a Igreja sofreu.

O menino de Uiraúna no meio do furacão.

Sonhava ser vigário para ficar perto de pobres e oprimidos, na trilha de dom Helder Câmara. A vida, porém, o aproximou da alta hierarquia católica brasileira, na condição de assessor jurídico-canônico da presidência da CNBB. Mas não abandonou sonhos antigos, como prova sua luta até hoje desenvolvida, destinada a formar missionários e viver junto dos pobres.

Parte da atribulada trajetória de monsenhor Gervásio está registrada no livro A tristeza de não ser santo: memórias do Pe. Gervásio Fernandes de Queiroga. Aqui, menciono somente pequenos trechos. Elaborado a partir de longas entrevistas, conduzidas por um grupo de professores e estudantes de teologia, submetidas à revisão do entrevistado. Não se trata, portanto, de memórias de intelectual, ufanista de si mesmo, escritas para o autor incensar-se. Nada disso. As dezenas de perguntas, contudo, nem sempre induziram monsenhor Gervásio a abordar aspectos de sua vida, como padre e cidadão, de grande significado para a história da diocese de Cajazeiras. Tem nada não. A mãe viveu 94 anos e o pai 98! Há tempo de sobra.

Francisco Cartaxo

Francisco Cartaxo

Francisco Sales Cartaxo Rolim foi secretário de planejamento do governo de Ivan Bichara, secretário-adjunto da fazenda de Pernambuco – governo de Miguel Arraes. É escritor, filiado à UBE/PE e membro-fundador da Academia Cajazeirense de Artes e Letras – ACAL. Autor de, entre outros livros, Guerra ao fanatismo: a diocese de Cajazeiras no cerco ao padre Cícero.

Contato: cartaxorolim@gmail.com

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Francisco Sales Cartaxo Rolim foi secretário de planejamento do governo de Ivan Bichara, secretário-adjunto da fazenda de Pernambuco – governo de Miguel Arraes. É escritor, filiado à UBE/PE e membro-fundador da Academia Cajazeirense de Artes e Letras – ACAL. Autor de, entre outros livros, Guerra ao fanatismo: a diocese de Cajazeiras no cerco ao padre Cícero.

Contato: cartaxorolim@gmail.com