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Edivan Rodrigues

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As memórias de Tota Assis

11/07/2012 às 11h42

O ano de 2013 assinala o centenário de nascimento do Antônio Assis Costa. Tota Assis chegou a Cajazeiras ainda menino, vindo da antiga “São José de Piranhas, uma vila modorrenta e atrasada”, acompanhando seu pai, Joaquim Manoel da Costa, como está escrito no livro de memórias “A(s) Cajazeiras que eu vi e onde vivi”. Aqui Tota cresceu, casou, criou seis filhos, exerceu intensa atividade empresarial na agropecuária, no comércio de veículos, na política, na vida social, sempre com atuação vibrante até sua morte em 1984, aos 71 anos.

A releitura que acabo de fazer do livro de Tota Assis fortalece em mim a convicção da importância de seus registros para a reconstituição da história de Cajazeiras. Confesso que fizera leitura anterior com o olhar fixado nos aspectos partidários, em busca de subsídios para elaborar o livro Do Bico de Pena à Urna Eletrônica, concluído em 2006. Agora, não. Agora abri mais o foco e pude avaliar com nitidez o significado de seus relatos e comentários, não apenas sob a ótica política, mas também do ponto de vista do crescimento de Cajazeiras, dos esportes, dos flagrantes da vida sertaneja na primeira metade do século 20, enfim, dos costumes religiosos, sociais e políticos daquela época. Imagino que os informes sobre os times de futebol devem ter proporcionado a Reudesman Lopes a mesma satisfação intelectual que a mim propiciaram as observações de Tota acerca de vultos expressivos da política cajazeirense na República Velha e no tempo de Vargas.

Não que seus registros sejam verdades absolutas. Nada disso. Eles, os registros, têm o viés inerente ao memorialismo. Constituem, todavia, referências para o pesquisador confrontá-los com outras fontes. Até o mundo acadêmico, cheio de rigor científico, os utiliza como matéria prima de dissertações e teses. As articulações para fundar em Cajazeiras o Rotary Clube é um bom exemplo. Instigado por empresários de Campina Grande, Tota Assis convidou rotarianos daquela cidade a se deslocarem até Cajazeiras a fim de abrir caminho para facilitar a conquista de adeptos, pois o Rotary era pouco conhecido por essas bandas, nos idos de 1940. Além disso, uma das preocupações de Tota era saber se o Rotary era igual à Maçonaria. Por quê? Ele mesmo explica:

“Naquele tempo, tudo que fosse novidade e tudo que se fizesse para fazer o bem ou combater o mal, teria que ter o beneplácito do Exmo. Sr. Bispo que, numa espécie de Inquisição atenuada, tudo sabia por intermédio de beatos e beatas. De antemão, Dom João da Mata Amaral sabia da chegada da embaixada a Cajazeiras e dos propósitos dela.”

E qual foi a reação do bispo? Negativa. Decisivamente negativa. Por mais que os rotariamos argumentassem, dom Mata disse que o “Rotary é uma espécie de Maçonaria Branca e que iria combatê-la do púlpito de sua Igreja.” Mesmo assim, o Rotary de Cajazeiras foi fundado, tendo Deodato Cartaxo como seu primeiro presidente e Tota Assis, secretário. Tudo muda com o passar do tempo. O ranço da Igreja esvaiu-se e o Rotary de Cajazeiras chegou a ser presidido por monsenhor Vicente Freitas… E Tota Assis abandonou o Rotary, engajando-se no Lyons. Mas isso é um episódio que não aparece em suas memórias.
 


Os textos dos colunistas e blogueiros não refletem, necessariamente, a opinião do Sistema Diário de Comunicação.

Edivan Rodrigues

Edivan Rodrigues

Juiz de Direito, Licenciado em Filosofia, Professor de Direito Eleitoral da FACISA, Secretário da Associação dos Magistrados da Paraíba – AMPB

Contato: [email protected]

Edivan Rodrigues

Edivan Rodrigues

Juiz de Direito, Licenciado em Filosofia, Professor de Direito Eleitoral da FACISA, Secretário da Associação dos Magistrados da Paraíba – AMPB

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