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Mariana Moreira

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Dias de lua

22/10/2021 às 23h44

(Imagem ilustrativa - reprodução/internet).

Por Mariana Moreira

Ela está lá. Em todas as suas fases ela sempre aparece. Tímida, em expressão de um pequeno filete. Amostrada em sua plenitude de quase cheia. Ocultada por nuvens ou pela luminosidade solar. Mas, na imensidão azul que esconde infinitos ela aparece sempre para os olhos de quem quer vê-la e enxerga-la como integrante da paisagem celeste, mesmo durante o dia.

E meu amigo Frassales indaga se tenho publicações de obras poéticas, pois aos poetas é concedida a graça de ver a lua em pleno dia. Espicho o olhar e a enxergo na abobada azul, serelepe, brincando de esconde-esconde com fiapos de nuvens que passam traquinas em direção a lugar nenhum.

Ora, amigo Frassales, sou poeta sim e, como você e tantos outros milhões de poetas do cotidiano, consigo enxergar luas no ofuscar de sóis e clarões de dia, como enxergo humanos em gentes apagadas em rotos trajes e sujas caras de mendigos, pedintes, povo de rua. Enxergo humanos em negros, antecipadamente e indevidamente, classificados de bandidos, marginais, perigosos.

Enxergo humanos em mulheres silenciadas, de corpos dilacerados pela violência, de vontades e autonomia amordaçadas e tolhidas em mandos machistas, de vidas colhidas pelas mãos opressoras de maridos, companheiros, amantes. Enxergo mulheres que somem da existência apenas e somente pela violência justificada pela sua condição de gênero.

Enxergo luas em dias de sol na pele queimada de pacas, tatus, tamanduás que agonizam nas queimadas criminosas que consomem pantanais, amazonias, serrados, caatingas. Peles queimadas que se agregam as cinzas de angicos, baraúnas, jacarandás, andirobas, maçarandubas, aroeiras, copaíbas, cedros. Árvores tombadas na trilha do agronegócio que espalha boi, soja e bala pelos campos, matas, serrados, matando índios e ninhos, extinguindo homens e voos, turvando de fumaça e lágrimas sóis e poentes melancólicos, escondendo a alegria de poetas e humanos.

E as luas cruzam os céus. Em dias e noites elas seguem trançando caminhos, enredando tessituras, desenhando narrativas. Mas, nossa presunção de superioridade da espécie apaga a sensibilidade de vê-las onde elas sempre estão. Preferimos ocultá-las com a fumaça das queimadas. Ou busca-las em naves e artefatos espaciais.

E assim, a poesia que se faz no existir precisa da sensibilidade de enxergar luas na claridade do dia para se alimentar e alimentar o humano que se apaga em nós.

Mariana Moreira

Mariana Moreira

Professora Universitária e Jornalista

Contato: altopiranhas@uol.com.br

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Mariana Moreira

Mariana Moreira

Professora Universitária e Jornalista

Contato: altopiranhas@uol.com.br

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