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Francisco Cartaxo

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Diplomacia de joelhos

09/12/2019 às 08h18

Coluna de Francisco Cartaxo

Duas palavras, vergonha e retrocesso, classificam a política externa do governo Bolsonaro. O amadorismo como o capitão e seus auxiliares tratam das intrincadas relações internacionais coloca o Brasil no nível de quem se agacha e ainda pede perdão. Alinhamento gratuito do Brasil aos Estados Unidos. Exemplos: o acordo para uso pelos americanos da Base de Alcântara e a não condenação do bloqueio econômico americano a Cuba. Na ONU, 187 nações votaram a favor; apenas três, USA, Israel e Brasil, foram contra esse inqualificável anacronismo.

Em nome de quê?
Da ideologia? A troco de quê? De nada. Em um ano de governo, Trump não fez sequer um gesto concreto em favor do Brasil. Ah, mas o capitão quer fortalecer a potência americana, única capaz de combater o comunismo! Fala sério? Parece que o Brasil de Bolsonaro parou no tempo. No tempo da Guerra Fria. Brutal ignorância, que se exibe com frequência em palavras e atos de ministros e outros agentes do governo federal. Que vergonha! Veja, leitor amigo, eu não estou falando das folclóricas demonstrações de subserviência do presidente Jair Bolsonaro, como beijar Donald Trump ou miar um abestalhado I love you, em casual encontro na sede das Nações Unidas. Quem explica? Freud ou Tiririca?

Isso me faz lembrar um episódio protagonizado, há 55 anos, pelo general Juracy Magalhães. Consolidado o golpe de 1964, quando o mundo vivia o auge da Guerra Fria, Juracy Magalhães foi nomeado embaixador do Brasil nos Estados Unidos. Grato ao apoio americano à deposição de João Goulart, apoio efetivo, o antigo revolucionário de 30, pronunciou esta pérola:

O que é bom para os Estados Unidos é bom para o Brasil.

Era tempo de enorme tensão entre as nações (falava-se até numa terceira Guerra Mundial), por isso, com muita água benta, aceitava-se a posição do governo militar, então chefiado pelo general Castelo Branco. Eu escrevi aceitava-se. Nunca poderia justificar-se tamanha subserviência. Por quê? Naquela época, a diplomacia brasileira já ensaiava firmar posição de independência em face dos líderes dos dois polos geopolíticos mundiais: Estados Unidos e Rússia. Posicionamento que nada tinha de subversivo. Ora, os primeiros passos foram dados por Juscelino Kubitschek, com a OPAN – Operação Pan-Americana.

Depois, o fanfarrão Jânio Quadros abraçou a política externa independente, a sua maneira, com gestos histriônicos, a exemplo da inusitada condecoração de Che Guevara. Mas não se agachou. No instável governo de Jango, buscou-se uma aproximação do que, à época, se chamava de terceira força, formada por um grupo de países subdesenvolvidos, desejosos de fugir ao dilema bipolar da Guerra Fria. Na verdade, tentava-se meter uma cunha entre as duas grandes potências.

O golpe de 1964 deu marcha-a-ré nessa sinuosa caminhada. Mesmo assim, os profissionais do Itamaraty foram costurando com paciência as bases para as posições de independência, aliás, em sintonia com as mudanças processadas na economia brasileira e nossa inserção no quadro geopolítico mundial. Com a redemocratização, na década de 1980, o Brasil retomou o caminho diplomático sério, profissional, consequente, apesar de um ou outro desvio de rota.

E agora?
A ignorância histórica, que medra no governo Bolsonaro, aliada à subserviência, começa a destruir com burrice o que a diplomacia vinha construindo com estudo, sabedoria, paciência e respeito ao povo brasileiro. Uma vergonha, um retrocesso.

Francisco Cartaxo

Francisco Cartaxo

Francisco Sales Cartaxo Rolim foi secretário de planejamento do governo de Ivan Bichara, secretário-adjunto da fazenda de Pernambuco – governo de Miguel Arraes. É escritor, filiado à UBE/PE e membro-fundador da Academia Cajazeirense de Artes e Letras – ACAL. Autor de, entre outros livros, Guerra ao fanatismo: a diocese de Cajazeiras no cerco ao padre Cícero.

Contato: cartaxorolim@gmail.com

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Francisco Sales Cartaxo Rolim foi secretário de planejamento do governo de Ivan Bichara, secretário-adjunto da fazenda de Pernambuco – governo de Miguel Arraes. É escritor, filiado à UBE/PE e membro-fundador da Academia Cajazeirense de Artes e Letras – ACAL. Autor de, entre outros livros, Guerra ao fanatismo: a diocese de Cajazeiras no cerco ao padre Cícero.

Contato: cartaxorolim@gmail.com