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Mariana Moreira

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Lições de Suzano

15/03/2019 às 09h02

Coluna de Mariana Moreira

O que a tragédia de Suzano nos ensina?

A primeira lição que devemos tirar dos escombros de dor e desnorteamento é que a tragédia não é obra do acaso. Ela é consequência da ação concreta de homens que, em suas interações e propósitos, produzem governos e administrações que trazem como marca central a exclusão, a cultura do ódio, a desvalorização do humano em sua pluralidade e singularidade.

A mão que puxou o gatilho das armas que mataram adolescentes na escola, espalhando pânico e estarrecimento, é a mesma que, em recente campanha eleitoral para a presidência, espalha pelos palanques, redes sociais, aparições públicas e imaginário de milhões de brasileiros, sobretudo jovens, a imagem de mãos engatilhando armas como proposta principal e solução para problemas sociais e econômicos que, historicamente, foram inventados pelas elites.

O sangue que escorre por salas de aula e corredores da escola de Suzano traz a tonalidade da caneta BIC que, diariamente, sanciona leis e projetos eliminando investimentos em educação, segurança, saúde, incremento da agricultura familiar, em proteção do meio ambiente e das populações indígenas.

O gesto da mão engatilhando a arma se metamorfoseia no gesto da assinatura de decretos que reduzem os investimentos públicos na ciência e na tecnologia, com redução drástica de programas e políticas de incremento da iniciação científica, da formação e aperfeiçoamento de docentes, pesquisadores, cientistas. A opção que se apresenta é a de importar o conhecimento, gerando e reforçando a subserviência que, por séculos, nos atrelou à dependência de nações ricas que, desavergonhadamente, vilipendiaram nossas riquezas e, sobretudo, nossa soberania.

A mão que arremessou a machadinha nos corredores da escola de Suzano e feriu jovens, e nossa dignidade, é a mesma que assina medidas reduzindo o valor do salário mínimo e organiza uma proposta de reforma da previdência que destrói e destroça os avanços construídos a partir da Constituição de 1988, que define o princípio da solidariedade da seguridade social e assegura, como principio de direito, a assistência social aos que, ao longo da vida profissional, produziram riqueza, mas também, para os que, por razões várias, são impossibilidade de assegurar sua sobrevivência.

A mão que, de dedo em riste no sentido do gatilho, é a mesma que lê o anuncio do fim de benefícios da prestação continuada, que, resguardado pela Lei da Assistência Social, garante um salário mínimo mensal à pessoa com deficiência e ao idoso com 65 anos ou mais que comprovem não possuir meios de prover a própria manutenção, nem de tê-la provida por sua família.

Tudo em nome do combate a um fictício rombo da Previdência, cujas contas não batem pela motivação central das fraudes, das sonegações e, sobretudo, pelo desvio dos recursos públicos, sobretudo dos fundos previdenciários, para pagamento dos serviços e juros da dívida interna.

As lições de Suzano se somam as de Brumadinho, Mariana, El Dourado de Carajás, Canudos, Caldeirão.
E seguimos nos embalando nos versos do poeta Caetano Veloso, que nos interroga:

Será que nunca faremos senão confirmar
A incompetência da América católica
Que sempre precisará de ridículos tiranos?
Será, será que será que será que será
Será que essa minha estúpida retórica
Terá que soar, terá que se ouvir
Por mais zil anos?

Mariana Moreira

Mariana Moreira

Professora Universitária e Jornalista

Contato: altopiranhas@uol.com.br

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Mariana Moreira

Mariana Moreira

Professora Universitária e Jornalista

Contato: altopiranhas@uol.com.br