O circo do poder só funciona porque gostamos do espetáculo

Por Caliel Conrado – Existe um comportamento que se repete na política, nas organizações e até no dia a dia: Muitas pessoas preferem seguir alguém sem questionar, sem avaliar o que essa liderança realmente representa. É fato: o nome importa mais do que a ideia. A figura vale mais do que o conteúdo. E isso acontece porque seguir é mais fácil do que assumir responsabilidade.
Robert Michels, sociólogo e cientista político alemão, nascido em 1876, ficou conhecido por formular a Lei de Ferro da Oligarquia, uma das teorias mais influentes sobre poder, democracia e organizações políticas. Michels estudou como funcionavam partidos políticos, sindicatos e movimentos de massa, especialmente aqueles que diziam defender a participação popular e a igualdade.
Para ele, o problema não era apenas o poder concentrado em poucas mãos, mas a desistência coletiva de pensar. Questionar dá trabalho. Cansa. Incomoda. Seguir, ao contrário, traz alívio. Alguém decide por você. Alguém fala por você. Se der errado, a culpa nunca parece ser sua.
No fundo, poucos estão realmente preocupados com nacionalidade, bem-estar coletivo ou valores éticos e morais. O que move muita gente é a vantagem imediata: se dar bem, levar algum benefício, sair na frente. Aos poucos, vamos perdendo a noção do que significa ser humano e do valor das coisas mais básicas — respeito, empatia, responsabilidade e compaixão.
Enquanto isso, os poderosos, especialmente os políticos, se tornam dependentes do poder. Viciados nas regalias, nos privilégios e na sensação de controle, armam um grande espetáculo. Criam narrativas, inimigos imaginários, promessas vazias. Tudo para distrair, confundir e manter as massas presas em um labirinto de ilusões. Um circo bem montado, onde quase nada é o que parece.
E talvez o ponto mais desconfortável seja este: parece que gostamos disso. Gostamos de ser enganados. A ilusão protege do esforço de pensar, de escolher, de responder pelos próprios atos. Acomodados, trocamos valores por conveniência e crítica por torcida.
Costumamos apontar os políticos e os poderosos como se fossem monstros, criaturas perversas que surgiram do nada para nos oprimir. Mas essa leitura é confortável demais. Robert Michels já indicava que o poder não se sustenta sozinho: ele é concedido, alimentado e protegido por quem prefere não questionar. Em outras palavras, os líderes que criticamos são, em grande medida, uma obra coletiva.
Queremos tudo, só não queremos é o trabalho de pensar, discordar, assumir posição e aceitar que somos corresponsáveis pelas falhas do sistema em que vivemos. A renúncia ao pensamento crítico não é neutra — ela produz consequências.
Nesse sentido, os políticos se parecem menos com vilões e mais com criações nossas. São versões ampliadas de hábitos que toleramos: oportunismo, silêncio conveniente, relativização de princípios. Como no mito de Frankenstein, acontece algo parecido: a criatura não surge sozinha. Primeiro há o criador. Nós nos assustamos com o monstro quando ele foge do controle, mas evitamos encarar a parte mais incômoda da história — fomos nós que o criamos, peça por peça, e fomos nós que lhe demos vida ao entregar poder sem vigilância, sem crítica e sem responsabilidade. O poder que hoje nos incomoda foi, em algum ponto, autorizado por nossa passividade.
Michels nos lembra que a democracia não morre apenas por golpes ou abusos explícitos. Ela se desgasta quando a sociedade prefere a terceirização da consciência. Enquanto tratarmos os poderosos como monstros isolados, continuaremos isentos de culpa. Quando admitimos que participamos da criação deles, a crítica deixa de ser confortável — e começa a ser honesta.
Por isso, a pergunta mais importante não é quem você segue, mas por que você segue. Seguir é confortável. Pensar dói. Mas é justamente esse desconforto que faz a diferença entre quem participa da vida pública e quem apenas assiste, entre quem pensa por conta própria e quem aceita tudo sem questionar.
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