header top bar

Caliel Conrado

section content

O circo do poder só funciona porque gostamos do espetáculo

15/01/2026 às 09h22 • atualizado em 15/01/2026 às 09h28

O circo do poder só funciona porque gostamos do espetáculo

Por Caliel Conrado – Existe um comportamento que se repete na política, nas organizações e até no dia a dia: Muitas pessoas preferem seguir alguém sem questionar, sem avaliar o que essa liderança realmente representa. É fato: o nome importa mais do que a ideia. A figura vale mais do que o conteúdo. E isso acontece porque seguir é mais fácil do que assumir responsabilidade.

Robert Michels, sociólogo e cientista político alemão, nascido em 1876, ficou conhecido por formular a Lei de Ferro da Oligarquia, uma das teorias mais influentes sobre poder, democracia e organizações políticas. Michels estudou como funcionavam partidos políticos, sindicatos e movimentos de massa, especialmente aqueles que diziam defender a participação popular e a igualdade.

Para ele, o problema não era apenas o poder concentrado em poucas mãos, mas a desistência coletiva de pensar. Questionar dá trabalho. Cansa. Incomoda. Seguir, ao contrário, traz alívio. Alguém decide por você. Alguém fala por você. Se der errado, a culpa nunca parece ser sua.

No fundo, poucos estão realmente preocupados com nacionalidade, bem-estar coletivo ou valores éticos e morais. O que move muita gente é a vantagem imediata: se dar bem, levar algum benefício, sair na frente. Aos poucos, vamos perdendo a noção do que significa ser humano e do valor das coisas mais básicas — respeito, empatia, responsabilidade e compaixão.

Enquanto isso, os poderosos, especialmente os políticos, se tornam dependentes do poder. Viciados nas regalias, nos privilégios e na sensação de controle, armam um grande espetáculo. Criam narrativas, inimigos imaginários, promessas vazias. Tudo para distrair, confundir e manter as massas presas em um labirinto de ilusões. Um circo bem montado, onde quase nada é o que parece.

E talvez o ponto mais desconfortável seja este: parece que gostamos disso. Gostamos de ser enganados. A ilusão protege do esforço de pensar, de escolher, de responder pelos próprios atos. Acomodados, trocamos valores por conveniência e crítica por torcida.

Costumamos apontar os políticos e os poderosos como se fossem monstros, criaturas perversas que surgiram do nada para nos oprimir. Mas essa leitura é confortável demais. Robert Michels já indicava que o poder não se sustenta sozinho: ele é concedido, alimentado e protegido por quem prefere não questionar. Em outras palavras, os líderes que criticamos são, em grande medida, uma obra coletiva.

Queremos tudo, só não queremos é o trabalho de pensar, discordar, assumir posição e aceitar que somos corresponsáveis pelas falhas do sistema em que vivemos. A renúncia ao pensamento crítico não é neutra — ela produz consequências.

Nesse sentido, os políticos se parecem menos com vilões e mais com criações nossas. São versões ampliadas de hábitos que toleramos: oportunismo, silêncio conveniente, relativização de princípios. Como no mito de Frankenstein, acontece algo parecido: a criatura não surge sozinha. Primeiro há o criador. Nós nos assustamos com o monstro quando ele foge do controle, mas evitamos encarar a parte mais incômoda da história — fomos nós que o criamos, peça por peça, e fomos nós que lhe demos vida ao entregar poder sem vigilância, sem crítica e sem responsabilidade. O poder que hoje nos incomoda foi, em algum ponto, autorizado por nossa passividade.

Michels nos lembra que a democracia não morre apenas por golpes ou abusos explícitos. Ela se desgasta quando a sociedade prefere a terceirização da consciência. Enquanto tratarmos os poderosos como monstros isolados, continuaremos isentos de culpa. Quando admitimos que participamos da criação deles, a crítica deixa de ser confortável — e começa a ser honesta.

Por isso, a pergunta mais importante não é quem você segue, mas por que você segue. Seguir é confortável. Pensar dói. Mas é justamente esse desconforto que faz a diferença entre quem participa da vida pública e quem apenas assiste, entre quem pensa por conta própria e quem aceita tudo sem questionar.


Os textos dos colunistas e blogueiros não refletem, necessariamente, a opinião do Sistema Diário de Comunicação.

Caliel Conrado

Caliel Conrado

Caliel Conrado, natural de Cajazeiras (PB), atua na imprensa há mais de 30 anos, com ampla experiência como apresentador de rádio e TV, redator e assessor de comunicação.
Ao longo de sua trajetória, exerceu importantes funções no serviço público, entre elas diretor da sucursal do jornal A União em Cajazeiras, secretário de Comunicação e secretário de Desenvolvimento Econômico.
Na comunicação, construiu uma carreira sólida em diversas emissoras da região, como Rádio 96 FM (Barro – CE), Cidade FM 104,9, Rádio Alto Piranhas, Rádio Patamuté FM, Rádio Arapuan FM e TV/Site Diário do Sertão.
Reconhecido por sua credibilidade, profissionalismo e compromisso com a informação, Caliel Conrado é uma das vozes mais respeitadas do jornalismo sertanejo.

Contato: [email protected]

Caliel Conrado

Caliel Conrado

Caliel Conrado, natural de Cajazeiras (PB), atua na imprensa há mais de 30 anos, com ampla experiência como apresentador de rádio e TV, redator e assessor de comunicação.
Ao longo de sua trajetória, exerceu importantes funções no serviço público, entre elas diretor da sucursal do jornal A União em Cajazeiras, secretário de Comunicação e secretário de Desenvolvimento Econômico.
Na comunicação, construiu uma carreira sólida em diversas emissoras da região, como Rádio 96 FM (Barro – CE), Cidade FM 104,9, Rádio Alto Piranhas, Rádio Patamuté FM, Rádio Arapuan FM e TV/Site Diário do Sertão.
Reconhecido por sua credibilidade, profissionalismo e compromisso com a informação, Caliel Conrado é uma das vozes mais respeitadas do jornalismo sertanejo.

Contato: [email protected]

Recomendado pelo Google: