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Mariana Moreira

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Palavras, acidente?

15/02/2019 às 09h19

Coluna de José Antônio

As palavras não são inocentes. Elas trazem e traduzem em seus significados os sentidos das vivências e experiências humanas. Assim, as palavras, ditas ou silenciadas, falam e revelam intencionalidades, desejos, propósitos e, portanto, dizem o lugar de quem as pronunciam. As palavras trazem toda carga resultante do processo humano de transformação do natural em cultural, da pedra em machadinha, do cipó em lança, do barro em casa.

A chuva que cai e escorre por riachos, córregos, rios é a natureza em sua manifestação espontânea. A chuva que cai e transborda causando inundações, destruindo moradias, matando pessoas, não é acidente da natureza, mas conseqüência da ação cultural do homem que assoreia rios, aterra córregos, polui lagoas e mares, destrói a cobertura vegetal de escarpas e morros.

Onde existiam florestas são erguidos edifícios. O curso natural de riachos e córregos some nos aterros e a água da chuva, mesmo em pequenas quantidades, passa a ocupar os espaços humanos, desencadeando, muitas vezes, tragédias que marcam e impingem flagelos e sofrimentos, sobretudo, para os grupos de pessoas mais fragilizados socialmente, pois são eles que, tangidos pela ganância de ricos, passam a viver e morar em áreas insólitas.

Essa compreensão da necessária distinção entre natureza e cultura se impõe neste momento em que Brumadinho, reeditando Mariana, expõe, da forma mais cruel e dolorosa, as feridas dessa sangrenta conversão de natureza em cultura. Brumadinho não foi acidente, embora traga a configuração da tragédia que destrói vidas, altera paisagem, contamina sonhos. Brumadinho é um crime que, como Mariana, foi planejado nos gabinetes da Vale do Rio Doce. Um planejamento que tem como meta única a exploração dos minérios que irão alavancar as cotações da empresa nas bolsas de valores. Os rejeitos resultantes da exploração mineral podem e devem ser descartados com o menor custo, para não comprometer as metas de lucratividade.

Também não podermos aceitar como acidente o incêndio que destruiu o Centro de Treinamento do Flamengo, matando vários jovens carbonizados. A caldeira em que se transformou o “Ninho do Urubu” teve suas chamas atiçadas pela mesma ganância que rompeu a barragem de Brumadinho. Ao converter jovens aspirantes a jogador de futebol em potencial possibilidade de lucros exorbitantes, os clubes de futebol estão, cada vez mais, investindo na cata de talentos a serem lapidados nas chamadas “categorias de base” e, expostos as vitrines da mídia, atrair a atenção dos milionários clubes europeus. Clubes que, seguindo a lógica capitalista atual, terceirizam essa parte da produção e, assim, abrem possibilidades para que clubes de países pobres formem os seus novos jogadores. Tudo sob a utopia de que o futebol é a única possibilidade de dignidade de vida para esses meninos e suas famílias. Ora, o que foi o incêndio do Flamengo. Apenas uma tragédia a ser esquecida quando despontar o próximo craque.
Portanto, palavras não são meros acidentes.

“Não é isso, Cecília Meireles?
Ai, palavras, ai, palavras,
que estranha potência a vossa!
Todo o sentido da vida
principia à vossa porta;
o mel do amor cristaliza
seu perfume em vossa rosa;
sois o sonho e sois a audácia,
calúnia, fúria, derrota…”

Mariana Moreira

Mariana Moreira

Professora Universitária e Jornalista

Contato: altopiranhas@uol.com.br

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Mariana Moreira

Mariana Moreira

Professora Universitária e Jornalista

Contato: altopiranhas@uol.com.br