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Mariana Moreira

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Secas lições

10/01/2020 às 07h34

Coluna de Mariana Moreira

A região semiárida nordestina enfrentou, no período de 2012 a 2017, um ciclo de estiagem que, segundo especialistas, é considerado o mais longo, em termos de tempo, e o mais devastador, em termos técnicos de ausência de precipitações e de danos causados ao meio ambiente físico e humano.

Uma situação cujo agravamento tem estreita relação com o contexto mundial de aquecimento global que apresenta como uma de suas consequenciais o aumento da intensidade de ocorrências de secas prolongadas em regiões semiáridas do planeta.

E quais lições herdam-se desse momento?

Uma que se suspende à condição de positiva refere-se ao processo político e social que começa a ser desencadeado nas duas últimas décadas do século passado, a partir do protagonismo de movimentos sociais, pastorais católicas, organizações não governamentais, grupos e instituições de pesquisa que, nos rastros de mais um ciclo de secas, iniciam articulações para a proposição de mudanças de concepção, de práticas e de relações entre Estado e região. Mudanças que tem como foco principal o deslocamento do eixo de combate a seca para a proposição de convivência com o semiárido.

Uma convivência que traz como mote central os conhecimentos acumulados pelos povos do semiárido, em suas múltiplas vivências e espaços. Assim, surgem as chamadas tecnologias sociais traduzidas em cisternas de placa e calçadão, sementes da paixão, cilos comunitários, barragens subterrâneas, agroecologia, reforma agrária e hídrica na caatinga, entre tantas outras que começam a ser disseminadas e experimentadas em vários contextos. Uma disseminação que, travestida de um intenso sentimento pedagógico, se personifica em visitas de intercâmbios, momentos de formação, experimentos partilhados.

Uma articulação que, tangida pela pressão popular, consegue incorporar várias demandas como políticas públicas de governo, tendo como referencia principal o programa “um milhão de cisternas”. E a consequência maior dessa mudança foi a inexistência, durante o último longo período de estiagem, de qualquer registro de movimentações das “chamadas populações flageladas” e seus degradantes espetáculos de “saques”.

Mas, a articulação social e popular não teve a força política necessária para alterar, visceralmente, as formas e entendimentos que, por décadas, orientaram as ações governamentais. Exemplo mais patente dessa fragilidade foi o mega projeto de transposição do rio São Francisco que, encarnando o velho espírito das elites retrógradas, de combate as secas com as grandes e espetaculosas obras hídricas, hoje fenece entre escândalos de corrupção e abandono.

A força da articulação também não consegue superar as artimanhas e jogos políticos de uma elite rançosa e atrasada que, com golpes e estratégias múltiplas, interrompe governos e soterram o que ainda encontrava-se no nascedouro.

E as políticas públicas de convivência com o semiárido que ousavam ensaiar seus primeiros passos, são abortadas como perigosas por permitir aos povos desta região a possibilidade do protagonismo.

Mariana Moreira

Mariana Moreira

Professora Universitária e Jornalista

Contato: altopiranhas@uol.com.br

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Mariana Moreira

Mariana Moreira

Professora Universitária e Jornalista

Contato: altopiranhas@uol.com.br