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Gildemar Pontes

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Tratado geral da imbecilidade

28/04/2020 às 17h14

Tratado geral da imbecilidade

Por Carlos Gildemar Pontes

Alguns escritores e pensadores contemporâneos têm se dedicado ao tema com preocupação e procurando respostas que estão sendo maturadas no campo das reflexões de ordem filosófica, sociológica e poética. O campo cultural, onde podemos realizar interseções de ordem reflexiva, aponta para um novo muro de contenção, a ignorância. Com a queda do Muro de Berlim, a dissolução administrativa e política da União Soviética e o desmembramento da Iugoslávia, rompemos de vez com a Guerra Fria e passamos a viver a era do Capitalismo estratificado.

Uma nova ordem e a imposição de modelos para estreitar distâncias e economizar esforços foram implementados pelos países de economia sólida e conquistas tecnológicas sedimentadas. Restou aos países periféricos e subdesenvolvidos uma reinvenção para escapar da degola econômica e social. América Latina, África e Ásia aceleraram esse processo e revelaram que alguns países conseguiram retroceder nas conquistas do mundo globalizado.

Ser o maior produtor de soja, ter reservas minerais incalculáveis e ser detentor da maior biodiversidade do planeta não tornou o Brasil um país competitivo e ordenador de políticas internacionais inclusivas. É aí que entra o título deste artigo. Nosso povo, sem identidade que possa atingir o conhecimento da história e das virtudes do país, tornou-se refém de políticos e de sub-religiões. Duas formas de bestializar e subalternizar as mentes. Em outras palavras, o cultivo da educação e das riquezas culturais do país ficou sufocado pela falta de uma identificação do povo com a sua própria história.

As corporações que fabricam as riquezas e flutuam nos mercados frágeis, como sanguessugas, conhecem o potencial de investimento de países continentais e populosos como o Brasil. Do subproduto cultural das décadas de 70 e 80, que recebíamos dos Estados Unidos, ao boom das redes sociais inclusivas, fomos substituindo a nossa liberdade por um aprisionamento consentido num computador ou num smartphone. Bibliotecas e Museus foram virtualizados, mas não frequentados pela acessibilidade. Os equipamentos culturais de tijolo e alvenaria estão cada vez mais abandonados, trocados por horas a fio nas redes sociais.

São, pelo menos, cinquenta anos de lavagem cerebral. Começou na ditadura militar e prosseguiu com os governos neoliberais de FHC, Lula e Dilma, com avanços e recuos na ordem da ruptura desse modelo alienador. Mas o povo não foi levado às escolas que foram construídas. O sentimento de pertencimento ao país que venceu parte da crise não foi explorado como parceria entre governo e povo. Eis por que o fracasso das alianças políticas entre um governo de esquerda e a direta podre resultou na cassação da Dilma e na prisão do Lula. Eles foram incapazes de romper o sistema podre, preferindo a adesão “ingênua” e suicida para manutenção no poder. Os mesmos insatisfeitos com a política de diminuição tímida entre ricos e pobres, reagiram voltando-se para o que tinham de trunfo como elemento distintivo, o poder aquisitivo.

Só um lembrete necessário: ricos e classe média no Brasil não são sinônimos de aculturados e intelectualizados cidadãos de “bens”. Ao contrário, a maioria destes empapuçados de grana são tão estúpidos de conhecimento, que muitos creem que a terra é plana, o que não dá mais para continuar a definição. Essa crença por si só já lhes define.

O problema da esquerda é o sectarismo, agravado com a chegada ao poder. Conheço muitos que se dizem lutadores sociais que disputam cargos de terceiro escalão com altos índices de trairagem e golpismo, modos presentes e costumeiros na direita.

O que mais me preocupa e se trata de uma questão de sobrevivência de um povo, é a expansão da estupidez como prática comum entre as visões sobre a convivência humana. Ricos que ostentam patrimônio como virtude, desfilam seus carrões em meio a uma pandemia (que restringiu o acesso às aglomerações por recomendação dos órgãos de saúde internacionais) e o fazem por direito de não deixarem de ganhar dinheiro daqueles que exploram como trabalhadores e consumidores. É a lógica do extermínio da galinha dos ovos de ouro. Podem morrer muitos infectados pelo coronavírus, mas a reposição destes mortos se fará facilmente com a reserva de mercado.

Lembra do primeiro parágrafo, quando falei de capitalismo estratificado? Pois é isso. O capitalismo selvagem está tão atuante nas sociedades sem educação que, se não bastasse uma Reforma da Previdência que retira direitos dos mais pobres, o surgimento de uma pandemia de um vírus letal como o Covid-19 revela ainda mais a desinformação do povo e a morbidade gulosa dos capitalistas mais ignorantes de cultura geral.

O que fazer para não ser ignorante em meio a esta pandemia de estupidez? Não adianta eu tentar repetir a fórmula do sucesso neurológico dos que venceram pelo estudo. Vencer não significa se humanizar – que fique claro. Talvez um choque profundo na alma apague o egoísmo, a ganância e a estupidez, tornando, quem precisa de luz, um palito de fósforo, em busca de uma barreira de fósforo para se transformar em luz e se acender.

*Doutor em Letras – UERN, Professor da UFCG. Membro da Academia Cajazeirense de Artes e Letras – ACAL.


Os textos dos colunistas e blogueiros não refletem, necessariamente, a opinião do Sistema Diário de Comunicação.

Gildemar Pontes

Gildemar Pontes

Escritor e Poeta. Ensaísta e Professor de Literatura da Universidade Federal de Campina Grande – UFCG, em Cajazeiras. Graduado em Letras pela UFC, Mestre em Letras UERN. Doutorando em Letras UERN. Editor da Revista Acauã e do Selo Acauã. Tem 22 livros publicados e oito cordéis.

É traduzido para o espanhol e publicado em Cuba nas Revistas Bohemia e Antenas. Vencedor de Prêmios Literários locais e nacionais. Foi indicado para o Prêmio Portugal Telecom, 2005, o principal prêmio literário em Língua Portuguesa no mundo. Ministra Cursos, Palestras, Oficinas, Comunicações em Eventos nacionais e internacionais. Faixa Preta de Karate Shotokan 3º Dan.

Contato: [email protected]

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Escritor e Poeta. Ensaísta e Professor de Literatura da Universidade Federal de Campina Grande – UFCG, em Cajazeiras. Graduado em Letras pela UFC, Mestre em Letras UERN. Doutorando em Letras UERN. Editor da Revista Acauã e do Selo Acauã. Tem 22 livros publicados e oito cordéis.

É traduzido para o espanhol e publicado em Cuba nas Revistas Bohemia e Antenas. Vencedor de Prêmios Literários locais e nacionais. Foi indicado para o Prêmio Portugal Telecom, 2005, o principal prêmio literário em Língua Portuguesa no mundo. Ministra Cursos, Palestras, Oficinas, Comunicações em Eventos nacionais e internacionais. Faixa Preta de Karate Shotokan 3º Dan.

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