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Mariana Moreira

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Um país de maricas, é possível?

14/11/2020 às 16h46

Marica

O ato de prantear seus mortos está enraizado na própria existência humana. Registros arqueológicos e paleontológicos revelam que os homens, em suas diversas modalidades e experiências de vida, em épocas as mais remotas, já expressam múltiplas formas de relação com a morte. E, sobretudo, revelam práticas e costumes que reverenciam, de formas diversas, aqueles que saem, em definitivo, do convívio do grupo.

Tumbas, sarcófagos, pirâmides, desenhos rupestres trazem os registros de rituais, práticas e costumes que, ao longo de séculos, vão sendo inventados e instituídos como demonstração da relação dos homens com a morte e, sobretudo, com os mortos. Em todos os registros uma situação parece prevalecer: o respeito aos mortos como um sentimento partilhado por todos, como reverência ao desconhecido, ao inexorável, ao que escapa a compreensão do imediato.

Até mesmo nas guerras mais sangrentas homens viris interrompem seus atos beligerantes em intervalos necessários para que os mortos sejam pranteados e sepultos. Gestos e costumes que traduzem vivências culturais e que vão sendo incorporadas ao cotidiano dos grupos humanos em suas diversas conformações geográficas, políticas, sociais, étnicas, de gênero. Práticas que não são exclusividade de uns, mais débeis, mais fracos, mais dengosos, ou maricas, como traduz nossa cultura machista e misógina.

Ser maricas, nesta versão cultural, é não ter a rigidez do macho que, empedernido, não chora diante da morte e da saudade. Ser maricas é ser solidário e humano com mulheres, negros, gays e lésbicas, estrangeiros, índios e todos os que, na diversidade e multiplicidade de rostos, lugares, cores, línguas, práticas e experiências afetivas, se fazem gentes e humanos.

Ser maricas é tremer diante das situações de humanidade e não expressar pela força e pela violência uma abjeta superioridade que se traduz no estupro, no espancamento, no assassinato. Ou seja, ser maricas é não ter a estúpida força para eliminar o que se apresenta como diferente do reflexo no espelho da dominação, do julgo, da prepotência, da arrogância e do fascismo.

E quando o não ser maricas se transforma em mote e padrão de governo no discurso do ódio que apaga e borra quaisquer fragmentos de humanidade nos sentimos embrutecidos e indiferentes as carcaças e cangaços de bichos e plantas carbonizados nas queimadas do pantanal e da amazonia. Expressamos frieza e desdém com as milhares de mulheres assassinadas nas gordas estatísticas do feminicídio. Nos extasiamos com a cara da fome que avança sobre corpos e vidas, lhes tragando o pulsar e lhes roncando barrigas e possibilidades de crescimento e de formação humana. A asfixia da indiferença apenas nos faz ser não maricas.

E, assim, nós, todos os maricas, seguimos buscando um mundo onde humanidade não seja tradução de pequenez.

Mariana Moreira

Mariana Moreira

Professora Universitária e Jornalista

Contato: altopiranhas@uol.com.br

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Mariana Moreira

Mariana Moreira

Professora Universitária e Jornalista

Contato: altopiranhas@uol.com.br

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