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Mariana Moreira

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A festa e o butim

17/11/2017 às 09h29 • atualizado em 17/11/2017 às 09h30

Os dicionários registram butim como a pilhagem dos bens do inimigo vencido, saqueados pelo vencedor; ou de qualquer roubo.

Qual o pecado de uma festa de aniversário? Quais terríveis transgressões ou heresias cometeram convidados e aniversariante em celebrar a vida? Quais crimes representam a dança e a alegria de sons e tons que expressam a cara e o jeito de nossa gente? Quais tenebrosos delitos cometeram para merecer a execração pública de uma nação que, em uníssono, dedo em riste, olhos esbugalhados, chispas de ódios, transformam a todos em párias, traidores, imundos?

Quais desatinados valores éticos sustentam e instituem nossos tempos?

Tempos em que a normalidade pode ser traduzida na conversão de suspeitas em provas irrefutáveis e capazes de condenar a priori, com a cobertura espetacular da mídia que, cúmplice, é beneficiária dos favores e benesses do Estado. A essencialização da tragédia como natural a um país que nasce, enquanto colônia, e amadurece, enquanto república, escravizando, excluindo, aprisionando grande parte de sua gente em guetos batizados de favelas e prisões.

O butim é generosamente dividido entre os vencedores que, escancaradamente, se mostram em auto doors de “homens honestos”, em conclaves de “direita conservadora” que defende o crime, a eliminação sumária, a limpeza étnica, a misoginia, o feminicídio. Homens, brancos, cristãos, defensores dos bons costumes e valores familiares, mas que, nas dobras e reentrâncias, espancam mulheres, matam moradores de rua, ocupam terras indígenas e reservas naturais, entregam o patrimônio nacional, se apropriam de recursos públicos.

Eles dividem o butim arduamente construído com a luta e, muitas vezes, a vida, de homens e mulheres que, se apercebendo de suas condições de explorados e discriminados, construíram estratégias, inventaram táticas e resistências, armaram greves, passeatas, marchas, escolheram representantes. Butim traduzido em conquistas de direitos a aposentadoria, ao salário minimamente compatível às suas necessidades, ao descanso semanal remunerado, a escola pública para o filho, ao hospital que lhe atenda como gente e não como mercadoria.

Direitos que, históricos, não são eternos e irreversíveis. Seu exercício carece de vigilância, cuidado, nutrição. O alimento que se forma nas lutas e embates, que cresce na permanente ação e na articulação política que produz o sindicato, o partido político, a associação, a escola aberta, laica e produtora de conhecimentos e consciências. O nosso butim nasce e se consolida como direitos e garantias na proporção de nossa cidadania.

Mas, nestes tempos produtores de uma ética conservadora, assassina, perversa, a peleja pela manutenção e ampliação de direitos representa tão somente um hediondo crime de “lesa a pátria”. Somos a espúria, as trombetas anunciadoras de um tempo de retrocesso, atraso, passado. Somos tão somente aqueles que partilham a estranha mania de defender direitos humanos, de ver dignidade no que se considera “privilégio” que fomenta a “preguiça” e justifica nosso atraso.

E, nestes tempos, “é bom que se proteja, ofereça a face a quem quer que seja”.

Mariana Moreira

Mariana Moreira

Professora Universitária e Jornalista

Contato: altopiranhas@uol.com.br

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Mariana Moreira

Mariana Moreira

Professora Universitária e Jornalista

Contato: altopiranhas@uol.com.br