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Mariana Moreira

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A rua dos meninos

15/01/2022 às 08h09 • atualizado em 15/01/2022 às 08h10

Coluna de Mariana Moreira. (Imagem ilustrativa - reprodução - internet).

Por Mariana Moreira

Os gritos alegres bailam ao ritmo das coloridas pipas que singram céus e sonhos de meninos. A rua tranquila se agita em acrobacias e destreza de mãos que imprimem ritmo e direção a ventos e aventuras. E me fascina o encantamento. E me agarro a rabiola de uma descuidada pipa que, rasteira, passa ao imaginário alcance de meu desejo de voar nos mundos daqueles meninos de calções marcados por sujeiras e traços de terrenos baldios onde pequenas touceiras de algodão de seda se agigantam em densas florestas a esconder mundos e revelar possibilidades de criação e invenção.

A chuva da noite ainda respinga e brilha nas derradeiras gotas que se desprendem das biqueiras. E os meninos espalham gritos e algazarras nas poças de água que desenham profundas lagoas no minúsculo quadrado do terreno baldio espremido entre casas. E me associo a trupe e advirto que, minutos antes, jacarés e tubarões foram avistados nadando naquelas águas e que, por limitação de espaço, migraram para o açude grande, onde a precoce sangria atrai olhares e curiosidades. Olhares estranhos me fitam. Esboço um sorriso de canto de boca e os meninos me aceitam e me acolhem na aventura de atravessar mares tão revoltos.

E para mim se apresentam e se aventuram em conhecer minha casa, encantados com algumas poucas e raras antiguidades e minha farta coleção de imagens de São Francisco, meu protetor em travessias e trilhas de um planeta que tanto maltrata bichos, matos e gentes. E se empolgam com as novidades da casa, produzindo uma estranha, mas calorosa, sinfonia de mistura de vozes, perguntas, comentários. Mas as pipas, diligentemente largadas em alguma calçada, reclamam atenção e os meninos voltam à rua e, na sua pasmaceira rotina, agitam braços e gritos enquanto os coloridos artefatos somem nas correntes de vento que passam tangendo fiapos de nuvens em direção a poentes outros.

E os dias seguem. Alguns, sem os meninos que, certamente, encontraram outras trilhas e outras modalidades de aventuras. E o azul céu da rua se esconde entre nuvens e véus como a chorar a saudade dos meninos e de suas esvoaçantes e alegres pipas. Alguns dias depois, raios, relâmpagos e trovões correm biqueiras em chuvas que voltam trazendo os gritos dos meninos nas brincadeiras soltas e molhadas das águas que chegam lavando tristezas e calores de dias quentes e incertos. Os corpos molhados em pequenos calções saltam acrobacias e desenham cortinas de água. E são apenas meninos.

A campainha de casa é despertada pela insistência do toque. Abro o portão e sou sacudida pela sinfonia dos meninos que, com um retalho do jornal Gazeta do Alto Piranhas nas mãos, mostram minha foto e exigem a confirmação da curiosidade: é você aqui? E você escreve aqui? A confirmação faço agora. Para os meninos da rua.

Mariana Moreira

Mariana Moreira

Professora Universitária e Jornalista

Contato: altopiranhas@uol.com.br

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Mariana Moreira

Mariana Moreira

Professora Universitária e Jornalista

Contato: altopiranhas@uol.com.br

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