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Mariana Moreira

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O homem, o cão e o templo

17/05/2024 às 19h22

Coluna de Mariana Moreira - Foto: reprodução/Pixabay

Por Mariana Moreira – O homem e seu cachorro revelando a simbiose entre dois seres que, renegados pelo mundo, encontram guarita e pouso em ruas, calçadas, apertados bancos de praças.

O homem e seu cachorro que, de invisíveis seres sociais, se tornam opacos ante nossa sensibilidade de ver o outro.

Em andrajos que, ontem, desfilaram perfis alinhados, o homem traz no corpo, e na alma, a sujeira da vida impregnada em unhas corroídas e escurecidas pela ausência de quaisquer possibilidades de higiene. Traz na biografia as cicatrizes de tombos e pancadas, reais e possíveis, que lhe renegou qualquer fiapo de carinho, afeto, acolhimento.

O cão, magrelo e arrupiado, traz no pescoço uma improvisada coleira de trapos e pedaços sujos e esfiapados de corda. A magreza revela costela e ossatura de uma perna manca a denunciar a violência que, naturalizada, atinge tantos animais, e humanos, de rua que, largados pela nossa omissão, encontram parceria em tantos desvalidos, também largados ao relento do frio, da chuva, da fome, da sujeira, da morte em vida.

O homem e seu cachorro entram na igreja no momento exato da celebração. Buscam saciar a sede em um bebedouro situado em um cômodo dos fundos da capela.

Para alguns, uma presença indesejada e inoportuna para o ambiente e a ocasião.

Outros, em quantidade considerável, expressam e manifestam gestos e trejeitos que revelam o desconforto e a indignação por tão reles criaturas ousarem circular por um espaço, e em um momento, que não lhes são apropriados e convenientes.

Alguns, poucos, olham a cena misturando curiosidade, afeto e empatia. Veem naquelas criaturas a expressão do Criador e, ao mesmo tempo, a maldade de tantos outros semelhantes que, alimentados e alimentando a ganância, a exploração e a indiferença, arremessam ao abandono e a negligencia social e humana iguais em origem e destino.

E o homem e seu cachorro, tímidos, espicham um olhar de medo e afeto aos presentes na celebração. Aceleram o passo como a querer livrar o ambiente de suas incômodas presenças. Ou, por transgredirem a ordem natural do mundo, encarnam o sentimento de violadores da harmonia social.

O homem e seu cachorro saem da igreja. A celebração continua e, rapidamente, todos esquecem o episódio. Como também esquecem o pedido da mulher samaritana que, no encontro com Jesus, no Poço de Jacó, lhe pede:

“Senhor, dê-me dessa água, para que eu não tenha mais sede, nem precise voltar aqui para tirar água”.

Quantas vezes, então, em nosso cotidiano não somos indiferentes as várias modalidades de sede de tantos ao nosso entorno?


Os textos dos colunistas e blogueiros não refletem, necessariamente, a opinião do Sistema Diário de Comunicação.

Mariana Moreira

Mariana Moreira

Professora Universitária e Jornalista

Contato: [email protected]

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Professora Universitária e Jornalista

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