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Mariana Moreira

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O voo do canário

22/04/2022 às 16h10

Coluna de Mariana Moreira - imagem ilustrativa - reprodução/internet

Por Mariana Moreira

Gosto muito dos versos iniciais da música Terra Plana, do Geraldo Vandré. Versos que ele recita de forma pungente, e diz:

Me pediram pra deixar de lado toda a tristeza
Pra só trazer alegrias e não falar de pobreza
E mais: Prometeram que se eu cantasse feliz, agradava com certeza
Eu, que não posso enganar, misturo tudo o que vivo
Canto sem competidor, partindo da natureza do lugar onde nasci
Faço versos com clareza, à rima, belo e tristeza
Não separo dor de amor
Deixo claro que a firmeza do meu canto vem da certeza que tenho
De que o poder que cresce sobre a pobreza e faz dos fracos riqueza
Foi que me fez cantador.

Os versos do Vandré voam nas asas de um serelepe canário da terra que saltita nos enverdecidos galhos de uma jurema, na composição de cenas habitadas por galos de campina, sabiás, bem-te-vis, rolinhas.

Canários que, afugentados ou mortos pelo desmatamento desmedido da caatinga, pela expansão das pastagens e uso abusivo de defensivos e fertilizantes, tinham sumido de nossos olhos e ouvidos há vários anos.

E, aquele solitário canário que retorna e, de forma alegre, ensaia seu canto nas manhãs sertanejas da Semana Santa, traz imagens de infância quando os baixios ganhavam a coloração dourada dos amadurecidos cachos de arroz, levados em costas suadas para os batedores improvisados nos aceiros dos roçados. Batedores avidamente disputados por canários e tantas outras aves que, protegidas pela simplicidade do cultivo, catavam os grãos que sobravam das sacas e pontilhavam de pingos de ouro o chão ainda umedecido pela invernada.

E aquele solitário canário retorna na esteira de mudanças que, ainda tênues e frágeis, já começam a traduzir outros comportamentos e atitudes humanas perante a natureza. Mudanças que chegam com uma maior proteção as espécies nativas que, resguardadas por leis, conseguem, em esporádicos momentos, o abrigo legal contra o aprisionamento, o comércio clandestino, as gaiolas apertadas e descompassadas dos galhos e brotos de tantas baraúnas, juremas, pau d’arcos, marmeleiros, mofumbos, onde ninhos são montados, voos são ensaiados, cantos são sonorizados.

Mudanças que se anunciam também em práticas de cultivo e trato da caatinga. Práticas que trazem como protagonistas agricultores familiares, assentados da reforma agrária. Homens e mulheres que, construindo uma nova concepção do semiárido, não como maldição, mas como real possibilidade de convivência, entendem que a jurema, o pau ferro, a rolinha, o canário da terra, o mandacaru, a estiagem cíclica, são elementos de uma mesma realidade e, não separando “dor de amor”, é possível ouvir o sabiá, o bem-te-vi, o canário em galhos e copas de árvores, ao sabor de um gole de café e dois dedos de prosa.

Mariana Moreira

Mariana Moreira

Professora Universitária e Jornalista

Contato: altopiranhas@uol.com.br

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Mariana Moreira

Mariana Moreira

Professora Universitária e Jornalista

Contato: altopiranhas@uol.com.br

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