Rosa Flor Mandacaru

Por José Antonio – Esta semana resolvi mergulhar numa montanha de documentos que tenho, principalmente sobre a História de Cajazeiras, e me deparei com uns rascunhos de uma pretensa e inusitada vontade de ser um contista. Escrita à mão e em papel almaço lá estava o título do meu contido desejo: Rosa Flor Mandacaru. A produção deste sonho, além do titulo, tem apenas duas laudas. Passaram-se 15 anos e o contista desapareceu pelas veredas do sertão.
Rosa Flor Mandacaru seria o personagem de um conto que comecei a escrever ainda quando era aluno do Colégio Diocesano Padre Rolim, lá pelos anos de 1963, inspirado nas histórias da família de um colega de classe, cujo sobrenome era Mandacaru.
Prometia a mim mesmo que iria concluí-lo, mas o tempo foi passando e Rosa Flor Mandacaru continuou povoando os meus sonhos, os meus desejos, as minhas lembranças e principalmente as minhas esperanças.
O que teria passado na cabeça de um pai no momento em que foi ao cartório para registrar a sua pequenina, bela e formosa menina com o nome de Rosa Flor Mandacaru? E o pai, Francisco José da Silva, é quem informa, começando pelo sobrenome: Mandacaru. Queria que a filha fosse a grande fêmea responsável pelo inicio de uma nova família com o símbolo mais forte do sertão árido do Nordeste, planta que as flores se abrem nas madrugadas para as abelhas sugarem o seu néctar. Rosa e Flor, sinônimos de beleza e encantamento, para perfumar a caminhada de sua vida.
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Chico da Silva exibia a filha como um troféu colocado no meio de seu grande roseiral. Pleno de esperança educava a filha ao seu modo. Cresceu tomando banho de açude e trepando em goiabeiras e espalhava alegria no coração de todos que a cercavam.
Era chegada a hora de Rosa ir pra escola. No primeiro dia de aula, a professora de caderneta na mão começou a chamada e quando disse Rosa Flor Mandacaru e ela respondeu: presente! Todos os colegas se voltaram pra ela e com ar de espanto e susto deram uma sonora gargalhada. Foi preciso a intervenção da professora.
O espanto maior foi o de Rosa e se indagou do porquê de tanta admiração em torno de seu nome. Em casa narrou tudo ao pai, que a confortou, falando: quem faz o nome é a pessoa, com suas ações, verdades, atitudes, propostas de vida, postura diante da sociedade e acima de tudo externando amor e respeito ao próximo.
Rosa, um dia, se postou diante de um grande pé de mandacaru, em plena floração e já coberto de frutos avermelhados, iguais as suas avermelhadas bochechas. Ficou cheia de encantamento, mas pensativa com o que diziam alguns amigos com relação ao seu nome: você é igual a um mandacaru, não dá sombra e nem encosto. E realmente os grandes espinhos chegaram a impedir que colhesse um dos frutos. Foi mais um dia de muitas reflexões para a “iniciadora” da família Mandacaru.
Foi sendo educada, nas férias escolares, entre o gado e a seca, entre os banhos de açude e a casa de farinha, na escuridão da noite e a luz da lamparina, com o amanhecer e a cantata do vaqueiro aboiador já tangendo o gado para o pasto.
Como todo sertanejo que se preza seu Chico da Silva gostava muito, mas muito mesmo de política. E Rosa foi crescendo ouvindo as opiniões do pai, que sempre entre uma baforada e outra de seu cigarro de fumo de Arapiraca enrolado numa palha de milho, dava aulas sobre a arte de fazer política.
Rosa Flor em breve daria o maior orgulho a sua família: estava concluindo o curso de Normalista no colégio das freiras e para surpresa de todos foi escolhida oradora da turma e foi aí a surpresa maior: na hora da fala de sua fala Rosa Flor trocou o comportado discurso, já aprovado pelas freiras, por outro que fez corar toda a platéia, cujo conteúdo tocava profundamente na corrupção, na roubalheira e na safadeza de muitos políticos, na questão do celibato na igreja católica, homossexualismo, libertação das mulheres, desemprego, analfabetismo, reforma agrária e o abandono dos nordestinos.
Rosa Flor foi ovacionada e carregada nos braços pelos colegas para desesperos das freiras, mas de muita alegria para seu Chico da Silva, que com seus botões pensou: minha menina parece que aprendeu a lição cedo de demais e Rosa Flor, nesta noite de gala, não foi motivo de gargalhadas quando seu nome foi pronunciado para receber o seu diploma e na naquele instante lembrou-se das palavras do pai: quem faz o nome é a pessoa. Quantas “Rosas” permeiam pelos prados e campinas dos sertões nordestinos?
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