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Mariana Moreira

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Chuvas e encantos

06/02/2026 às 18h52

Coluna de Mariana Moreira

Por Mariana Moreira – Os gritos expressam movimentos de alegria e amizade.

Enquanto o ritmo das primeiras chuvas caídas aumenta o volume de água nas biqueiras um grupo de meninos vive a experiência da infância, que, para tantos de nossa geração, faz parte do ritual do viver e do ser sertão: tomar banho de chuva e, nesse processo ir percorrendo as várias biqueiras que desaguam nas calçadas das casas. Alheios aos trovões e relâmpagos que, com insistência, rompem o silencio e cruzam o espaço pesados das nuvens de chuva com raios luminosos, desenhando riscados no céu, os meninos, em sua alegre algazarra, percorrem a rua e, nas poças formadas no leito da avenida, imaginam grandes oceanos esvaziados com chutes e pulos.

Uma esperança traduzida no verde que veste campos e prados outrora dominados pelo cinza da caatinga que, entre espinhos e troncos retorcidos, se protege das longas estiagens que marcam o ritmo da região e, assim, consegue se renovar a cada anuncio de precipitações que, encharcando o solo ressequido por longos meses de sol forte, brota em folhas, ramos, babugens.

As primeiras chuvas que, sinônimo de esperança, animam o agricultor a fazer o plantio de seus roçados, lançando à terra as sementes de milho e feijão que, germinadas com a sequencia das chuvas, assegurará uma safra de fartura e tranquilidade, sem o espectro das secas que, com frequência, ainda assustam e reativam memórias de tristeza e dor.

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Por entre campos cultivados e pastagens artificiais construídas o verde da baraúna, da aroeira, do mufumbo, do marmeleiro, da jurema preta ganham pujança e encantam bichos e pássaros que se aninham e se abrigam entre suas folhagens, no descanso e no pouso do dia, na proteção do ninho que garante a sequência da vida, entre cantos e sons espalhados pelo vento que, com recorrência, tange para além dos limites das sombras e desenhos da caatinga renovada.

E as primeiras chuvas trazem ainda, mesmo à revelia da tecnologia e dos engenhos que individualizam, isolam e desencantam, a esperança de que a vida pode ser traduzida num grupo de meninos amigos que se deleitam em um banho de chuva, me lembrando Milton Nascimento, quando nos presenteia com sua Bola de Meia, Bola de Gude.

Há um menino, há um moleque
Morando sempre no meu coração
Toda vez que o adulto balança
Ele vem pra me dar a mão

Há um passado no meu presente
Um Sol bem quente lá no meu quintal
Toda vez que a bruxa me assombra
O menino me dá a mão


Os textos dos colunistas e blogueiros não refletem, necessariamente, a opinião do Sistema Diário de Comunicação.

Mariana Moreira

Mariana Moreira

Professora Universitária e Jornalista

Contato: [email protected]

Mariana Moreira

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