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Mariana Moreira

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Votos de Ano Novo

02/01/2026 às 19h09

Foto de Monique Buchholz - reproduzida via pexels.com

Por Mariana Moreira – O refrão da música, lançada há quase meio século, sempre ressoa em mensagens de final de ano, como fundo musical de votos e desejos de felicidade, paz, prosperidade no ano que se anuncia.

Marcas do que se foi
Sonhos que vamos ter
Como todo dia nasce
Novo em cada amanhecer.

Em um movimento automático e irreflexivo, vamos repetido e cantarolando a música como ingrediente de uma etiqueta social. Desejamos feliz ano novo para o colega de trabalho, para a vendedora da loja, para o caixa do supermercado, para o morador de rua que te pede um trocado para comprar o pão que, muitas vezes, será sua única alimentação diária.

E, quais marcas se foram no ano que finda?

Uma pergunta inquietante, mas necessária e oportuna, quando colocamos nos pratos da balança as medidas certas de nossa história e das atitudes, gestos, comportamentos e, sobretudo, ações que imprimiram e imprimem marcas no que se foi e projetamos sonhos que vamos ter.

O morador de rua que te aborda no sinal de trânsito e recebe como devolutiva apenas um olhar indiferente e um vidro fechado, isolando do mundo real e protegendo da “indignidade” que representa a mendicância, o abandono, a miséria produzida por uma sociedade. Esta é uma das marcas do que se foi e, claro, continua sendo. Sendo, cotidianamente, uma sociedade que, historicamente, se constitui dividida entre os possuidores e os despossuídos. Os de pele branca e os não brancos. Os do gênero masculino e os não masculinos. Os letrados e os analfabetos. Os urbanos e os beradeiros da roça.

Uma divisão que, idealizada como natural, ofusca e esconde sua produção histórica. Assim, produto da ação dos homens na construção da vida social as separações carecem ser vistas e interpretadas como marcas de um tempo que ainda não se foi e que continua excluindo, diferenciando e, muitas vezes, matando.

Claro que os dias nascem. Mas, raramente, existem novidades nestes amanheceres. Pois, além do tempo da natureza, o tempo histórico é engenho humano. E, assim, trazendo, além do sol que desponta no nascente de cada dia, uma carga pesada que nos é impingida e que se torna mais áspera, asfixiante e intransportável quando entro no túnel da alienação e cantarolo, a plenos pulmões, que:

Este ano quero paz
No meu coração
Quem quiser ter um amigo
Que me dê a mão

O tempo passa e com ele
Caminhamos todos juntos
Sem parar
Nossos passos pelo chão
Vão ficar.

E a pergunta fica como votos de um Ano Bom: quais passos e quais amigos caminharão comigo nessa trilha de construção de um mundo mais humano? Pois, historicamente, todos não estarão junto no mesmo passo e na mesma caminhada enquanto formos apartados pelo ter, pelo ser, pela cor da pele, pelo patrimônio material.


Os textos dos colunistas e blogueiros não refletem, necessariamente, a opinião do Sistema Diário de Comunicação.

Mariana Moreira

Mariana Moreira

Professora Universitária e Jornalista

Contato: [email protected]

Mariana Moreira

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Professora Universitária e Jornalista

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