Terra de Imbecis

Por Alexandre Costa – A guerra dos chinelos nas redes sociais foi deflagrada por um simples comercial de sandálias na TV. Ela incitou ao máximo guerrilheiros digitais militantes de polos ideológicos extremados da direita e da esquerda, desnudando o alto grau de ignorância cívica ao qual o país hoje está submetido.
Há exatos 10 anos, Umberto Eco (1932-2016), filósofo e escritor italiano, sentenciava que a internet é “terra de imbecis” quando arrematou: “A internet deu voz a uma legião de imbecis que antes só falavam no bar, mas agora têm o mesmo direito à fala que um ganhador do Prêmio Nobel. A internet não seleciona a informação, há de tudo por lá”. A profética fala de Eco proferida durante uma solenidade quando ele recebeu título de doutor Honoris Causa, na Universidade de Turim, foi recebida pelos presentes com espanto e ceticismo.
Convivemos na internet com gente que pensa que sabe de tudo, que se acha analista para desvendar as origens e as motivações de qualquer imbróglio que surja nas redes sociais, mas, na realidade, não sabe de nada. São snipers digitais com conhecimentos rasteiros, sem nenhuma formação elementar, que acreditam que estão exercendo uma militância cívica.
O caso da conturbada peça publicitária das sandálias Havaianas estrelada pela premiada atriz Fernanda Torres denota claramente a falta de preparo e educação política do brasileiro para conviver num conflituoso ambiente de polarização ideológica burra.
Enquanto os militantes digitais se engalfinhavam para escolher qual o melhor pé para entrar no novo ano de 2026, os escândalos bilionários de corrupção, tráfico de influência, desprezo a preceitos constitucionais de proporções nunca vistas pipocavam na esfera dos três poderes da república:
O Executivo está enrolado com o grande roubo do INSS, que envolve um filho e um irmão do atual presidente da República. Além disso, há o rombo nas contas públicas, a falência dos Correios e o déficit nas estatais. Além disso, há suspeitas de relações incestuosas com o crime organizado, que deixaram a segurança pública em frangalhos.
O Judiciário, ao transformar a Suprema Corte em uma instância política, destruiu nosso sistema de justiça, instalando níveis de insegurança jurídica sem precedentes. Tem agora sua credibilidade abalada quando dois ministros estão sendo cobrados por conflitos de interesses na operação de liquidação do Banco Master pelo Banco Central.
O Legislativo, na calada da noite, usurpa poderes do Executivo, aprovando emendas parlamentares sem qualquer tipo de controle ou fiscalização, além de legislar em causa própria para se blindar de crimes e todo tipo de falcatruas.
A exacerbada e nefasta conflagração digital ideológica, além de tirar o foco das discussões dos verdadeiros problemas do país, levou o brasileiro a perder a percepção e o discernimento do que é certo e do que é errado. E o mais grave, fez também perder o senso de indignação, passando a aceitar passivamente e com naturalidade os constantes abusos praticados por altas autoridades dos poderes da República, que solapam as nossas instituições. Estaria o Brasil entrando na era de um Novo Normal?
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