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Professor Fábio Figueiredo

O Psicanalista comenta sobre a psique do ser humano

Por

09/01/2010 às 16h14

O professor Fábio Figueiredo, da Faculdade São Francisco, prestou entrevista ao portal “Diário do Sertão”, declarando a importância de comentar sobre a psique do ser humano, a importância das pessoas procurarem o psicólogo mesmo sem estarem passando por problemas mentais. Ele também esclarece questões comuns da sociedade, como o suicídio, a depressão na atualidade, e casos paranormais e sobrenaturais.

Fábio também é filósofo, psicanalista, um dos diretores e professores da UEPB, Campus III da cidade de Catolé do Rocha, membro efetivo do instituto de formação da Sociedade Paraíbana de Psicanálise, tendo formação em psicanálise clínica e é especialista em teoria e prática psicanalítica pela UNESP.

Diário do Sertão: Professor, a maioria das pessoas acredita que só quem deve buscar o psicólogo é o indivíduo que está passando por um processo de loucura. Qual a sua opinião a respeito?

Fábio Figueiredo: Na verdade há um certo preconceito muito enraizado no seio da nossa sociedade com relação às pessoas procurarem algum profissional dessa área relacionada aos estudos das ciências psicológicas, seja um psicólogo, psicanalista ou psiquiatra. Aos poucos nós temos tentado esclarecer a respeito dessa questão, e podemos perceber que este assunto está cada vez mais exposto na mídia, como por exemplo, o caso da novela “Caminho das Índias” da Rede Globo, que recentemente retratava casos de esquizofrenia. Hoje em dia nós vivemos num mundo bastante conturbado e com um nível de stress muito elevado, o que em muitos casos resulta em depressão, que no século XX se agravou cada vez mais na sociedade. Então, as pessoas têm tido a necessidade de procurar uma ajuda técnica mais elaborada nessa área e que na realidade, assim como outras partes do corpo adoecem, a exemplo do coração, fígado ou rins, a psique pode sofrer um distúrbio psíquico de ordem endógena, ou seja, pode ter causas fisiológicas, ou de ordem sócio-culturais, devido à pressão social que algumas pessoas podem sofrer. Dessa forma tais indivíduos precisam da ajuda de um profissional especializado na área psicológica, e assim temos esclarecido à sociedade a importância de qualquer pessoa buscar um profissional desta área, e não somente quem estiver passando por um processo de loucura. È importante reforçar que nesses casos de sofrimento psíquico, quanto mais cedo as pessoas que estiverem precisando deste tipo de tratamento, procurarem um profissional, maiores serão as chances de cura.

Diário do Sertão: Professor, o momento atual que a sociedade vive é de turbulências, a exemplo de crises financeiras, sentimentais e existenciais, que têm provocado principalmente na juventude um certo distúrbio na formação da personalidade, e no próprio caráter do ser humano. O período em que nós estamos vivendo, e se comparando a anos anteriores, ocorreu um crescimento de pessoas com problemas mentais e que em alguns casos têm levado estes indivíduos ao suicídio. Como o senhor avalia este momento que para sociedade é de alerta?

Fábio Figueiredo: Já no início do século passado, Freud escreveu um texto que falava um pouco dessa agonia da sociedade, chamado “O Mal-Estar na Civilização”, e na verdade o que podemos perceber é que de lá para cá estes casos vêm se acentuando bastante, e há duas questões que me chamam muito a atenção, pois um fator que tem se agravado muito, principalmente no que se refere à formação da personalidade, é a falta de valores, pois no mundo contemporâneo agente tem percebido que as pessoas têm deixado de observar valores particularmente caros na formação da sua personalidade, em troca de uma sociedade meramente consumista. Dessa forma o ser humano não vale mais o ser e sim o ter, e como a maioria das pessoas não têm, pois vivemos num país que ainda é muito pobre, e que está em fase de desenvolvimento, se causam muitas frustrações com relação ao consumismo exagerado. Assim, se uma pessoa for basear a sua felicidade somente naquilo que tem, é muito provável que este indivíduo sofra muito, por que este deixa de observar outras coisas da vida que também podem trazer felicidade, ou seja, outros valores que não estejam agregados simplesmente à questão do ter. Além da questão dos valores, o que temos observado é a falta de limites entre pais e filhos, porque na realidade tal relação na atualidade tem sofrido muito, principalmente pela ausência dos pais, pois desde o final da década de 1970, estes abdicaram da condição de educadores, passando a ser somente gestores materiais dos filhos, e muitas vezes tentam compensar esta ausência com presentes, dinheiro, carro e outros bens materiais, buscando justificar a sua ausência. Nos dias de hoje estamos com uma geração que demonstra no seu comportamento a ausência total dos pais, e, por conseguinte a ausência total de limites, e isso têm causado catástrofes na sociedade, porque percebemos cada vez mais jovens muito violentos, totalmente desorganizados do ponto de vista psíquico, e que estão entrando cada vez mais no mundo das drogas, o que é lamentável.

Diário do Sertão: Professor, outro problema bastante lamentável é a questão do suicídio, principalmente na região do Alto Piranhas, e de São José de Piranhas, que ultimamente tem ocorrido freqüentes casos de suicídio e tentativas. A que se deve o fato de um ser humano que possui laços familiares e de amizades, tentar tirar a própria vida?

Fábio Figueiredo: Na verdade o suicídio é um dos grandes enigmas que a ciência até hoje ainda não conseguiu dar uma resposta satisfatória. Freud postulou na sua obra uma coisa chamada de pulsão, pois ele dizia que o ser humano tem dois tipos de força que regem a sua existência e uma delas é a pulsão de vida, que na verdade diz respeito às questões construtivas do ser humano, e uma pulsão de morte que se relaciona com o poder de autodestruição. Os sociólogos, filósofos, psicólogos, psicanalistas, e psiquiatras já se debruçaram muito sobre essa questão, sem chegar a um termo definitivo. Muitas são as causas que leva uma pessoa a tirar a própria vida, como por exemplo, temos notado que famílias que têm casos de suicídio, que normalmente tais casos se repetem, pois há uma tendência genética para essas questões. O que acontece é que infelizmente no interior, principalmente na região do Alto Piranhas, ocorrem altos índices de suicídio, o que provavelmente está relacionado a duas hipóteses que são bastante pertinentes; uma delas é um certo rigor moral muito forte, por exemplo, as pessoas que na estão acostumadas com frustração, pois é muito freqüente vermos casos de um marido traído cometer suicídio, porque pra ele é inadmissível passar por uma traição, e ele tem preceitos morais tão rígidos, que não consegue superar aquilo e continuar vivendo. A outra suposição é que não só nessa região, mas em cidades do interior, podemos notar que há uma certa falta de opção, de lazer, cultura, e entretenimento, e o índice de alcoólatras é muito grande, então a pessoa que não tem opção de participar de outras atividades, pode-se levar também ao alcoolismo, que há possibilidade de resultar no suicídio.

Diário do Sertão: Professor há um dado interessante que foi repassado por uma enfermeira do Hospital Regional de Cajazeiras, que dizia que na região do Alto Piranhas também há casos de agricultores que usam defensivos agrícolas de forma errônea, sem nenhuma precaução, e de repente este defensivo causa no agricultor problemas de saúde que o leva a cometer suicídio. Há possibilidade de acontecer tal fato?

Fábio Figueiredo: Na verdade a psiquiatria que é o ramo da medicina que trata das questões físicas que podem levar a um desequilíbrio mental, tem avançado muito nos últimos anos. Recentemente, apareceu um novo ramo na ciência chamado de neurociência, que tenta justificar casos como depressão, suicídio, e altos níveis de stress. Há causas físicas mesmo, e sem dúvida tal processo de envenenamento pelos quais passam os agricultores dessa região, pode desencadear um certo desequilíbrio psicológico, que em última instância poderia levar ao suicídio. Nós sabemos que hoje em dia as doenças mais graves do ponto de vista da psique, não se restringem somente aos aspectos psicológicos, comportamentais ou sócio-culturais, mas existem causas endógenas, ou seja, um desequilíbrio físico causado por um envenenamento deste tipo pode levar sem dúvida, a um quadro depressivo, que se agravando há possibilidade de resultar em suicídio.

Diário do Sertão: Outra coisa que nós vivenciamos muito são as pessoas que dizem estar sendo obsediadas por algum espírito, e por isso admitem estar passando por alguma dificuldade, e aí terminam por buscar ajuda na macumba, feitiçaria, no espiritismo, e no próprio catolicismo ou outra religião, soluções para este problema. Essa questão de sobrenatural e paranormalidade é verdadeira? O que a psicanálise tem a dizer sobre isso?

Fábio Figueiredo: Na verdade a abordagem da psicanálise é meramente científica, e nós tentamos não discutir muito essa questão da fé, porque a fé é algo muito individual, ou seja, é de cada pessoa acreditar ou não. A fé é algo muito sublime e precisa ser respeitada. Freud na verdade era ateu, tinha uma formação judia, mas ele era um judeu não-religioso e escreveu um texto intitulado: “O futuro de uma Ilusão”, no qual ele aborda essa questão da religião, claro que do ponto de vista de um ateu. Mas o que agente percebe a respeito dessas questões referentes à paranormalidade, é que a psicanálise e a psicologia têm escrito muito sobre este assunto. Agora há um campo da psicologia chamado parapsicologia, e um exemplo de uma das pessoas que faz este tipo de estudo é o famoso Padre Quevedo, que já tem trinta anos de estudos referentes à paranormalidade, e tem vários livros publicados, onde ele tenta abordar tais fenômenos paranormais sobre uma ótica científica, como por exemplo, questões de paranormalidade, como objetos que circulam sozinhos dentro de casa, casa que pega fogo sozinha, pessoas que entortam metais pelo poder do pensamento, hipnose, dentre outros fenômenos. Então ele tem investigado estas questões e tem observado em anos de pesquisas, que 70% dos casos que estudou são farsas, pois as pessoas tentam se promover através de uma certa paranormalidade que não existe. Os outros 30% na verdade existem, mas que para a parapsicologia não tem nada a ver com a explicação religiosa, ou seja, para este ramo da psicologia estes fenômenos que acontecem são energias corporais, próprias de todo ser humano que estão em desordem e desequilíbrio. Se você prestar bem atenção, ao redor do nosso corpo há uma áurea, como se fosse uma luz que estivesse ao redor dele, que é a energia pura que todo ser humano possui. Alguns têm mais que outros, e essa energia quando está muito forte, se coloca em desequilíbrio, podendo provocar fenômenos paranormais, ou seja, é dessa forma que a ciência explica a paranormalidade, porém tais casos são raríssimos. Com relação às pessoas que falam com outras vozes que não é a sua, e diz estar possuída por um espírito ou por um demônio, a religião sempre tem uma explicação, mas a psicanálise acredita que na verdade é um caso de esteria coletiva, ou seja, as pessoas estão fragilizadas, estão numa situação de desequilíbrio emocional, muitas vezes estão desesperadas, e a manifestação de um grupo que há naquele momento faz com que o indivíduo manifeste o que está dentro dele, que pode ser algo benéfico, e que ele pode achar que está possuído por um espírito de luz, ou se ele está muito mal, o que na maioria das vezes pode acontecer, fazendo com que ele acredite que esteja possuído por um demônio. Então, a explicação que a psicanálise possui tem a ver com a interioridade do ser humano, ou seja, como ele está psicologicamente naquele momento, o que não tem nada a ver com fenômenos espirituais. E é óbvio, que esta explicação científica irá se confrontar frontalmente com as explicações religiosas, e eu sou uma pessoa que tenho um imenso respeito pelas religiões e pela fé, porque fui criado numa família extremamente católica ortodoxa, e cheguei até a freqüentar o seminário.

Diário do Sertão: Professor o senhor comentou de que tinha uma clínica em João Pessoa. O senhor também estará estendendo esta clínica para o sertão?

Fábio Figueiredo: Na verdade, desde que terminei o meu processo de formação que foi a cerca de três anos e meio, eu venho atendendo em João Pessoa, no bairro do Miramar, entretanto, tem ficado cada vez mais difícil para eu fazer este atendimento em João Pessoa por conta das minhas atividades acadêmicas aqui no sertão, e por conta da minha formação de Doutorado que eu estou fazendo no Recife. Então, estou muito dividido, e viajando o tempo inteiro, então há uma tendência muito grande de que a partir de março ou abril do próximo ano eu esteja inaugurando uma clínica de psicanálise aqui na cidade de Cajazeiras.

Diário do Sertão: Professor, qual a explicação da psicanálise no que diz respeito à psicografia, que está tão presente nos dias atuais?

Fábio Figueiredo: Na verdade a psicanálise se diferencia das outras ciências psicológicas, por que ela acredita no inconsciente, ou seja, toda a teorização de Freud foi baseada na explicação de que o ser humano tem uma porção consciente, que faz com que nós tomemos atitudes racionais, e temos uma outra porção desconhecida que é o inconsciente, mas que exerce um poder muito forte nas nossas vidas. Isso é revelado pela própria clínica, está revelado nos atos falhos, em que agente vai falar sobre uma coisa, e acaba falando de outra, ou seja, são questões embaraçosas, mas que diz respeito ao inconsciente. Quando Freud ainda era vivo, teve um movimento artístico na França muito forte que exerceu uma influência muito grande sobre este fato, chamado de surrealismo, e os surrealistas inventaram uma técnica de composição do texto literário, através de um grande poeta que era líder deste movimento, chamado André Breton, em que ele chamava de escrita automática, e tal escrita se parece muito com o processo que agente vê nas psicografias. Os surrealistas escreviam os textos, e mandavam para as gráficas sem nenhuma revisão, pois eles acreditavam que aquilo era uma voz do inconsciente, ou seja, como sendo algo primitivo que brotava do ser humano, como se fosse uma arte pura. Então para a psicanálise, a psicografia é uma manifestação que vem do inconsciente do ser humano, entretanto, esta não desmente a explicação que o espiritismo estabelece.

RAQUEL ALEXANDRE
Da redação do Diário do Sertão

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