O Agente Secreto é memória

Por Francisco Frassales Cartaxo – Foi alegria, alegria a conquista de duas estatuetas em Nova York! Melhor filme em língua não inglesa e melhor ator dramático. O pernambucano Kleber Mendonça Filho e o baiano Wagner Moura brilharam sob holofotes do mundo inteiro em filme de nordestinos. Paraibanos e cajazeirenses, entre eles o nosso veterano Buda Lira! A vibração espalhou-se pelo Brasil e por onde há brasileiros.
Nem todos gostaram.
O pastor Malafaia soltou espuma raivosa. Um deputado federal de São Paulo desdenhou: é página virada, não se deve avivar a memória daquele tempo!
O filme começa com um corpo humano inerte no chão de barro, coberto por papelão, logo visto por Marcelo (Wagner Moura), ao se aproximar de posto gasolina, perdido na beira da estrada, onde parou a fim de abastecer o fusca. Dupla de policiais aparece. Nem liga pro morto. Dirige-se ao jovem, já dentro do carro, interroga-o, confere documentos, revista o carro. Mas não recebe propina.
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A abertura revela muito do filme.
Ambientado no Recife em 1977, “O Agente Secreto” é cheio de simbolismo nas cenas, em gestos e olhares e falas curtas. Nos silêncios. Silêncios que lembram os do tempo da ditadura, muito embora já estivesse sob o comando do general Geisel. Nessa época o regime militar já se guiava pela estratégia da “abertura política lenta, gradual e segura”, três anos depois das 16 derrotas da Arena para o senado nos 22 estados. O MDB no gosto do povo! Por isso, também é o ano do “pacote de abril”, ardil que criou a esdrúxula figura do “senador biônico”. Fugia-se do voto popular com a nomeação de um terço dos senadores, a fim de garantir maioria à Arena, o partido de sustentação política do governo ditatorial.
“O Agente Secreto” vive o clima do início do repúdio à ditadura, expresso nas urnas de 1974, dois anos após o estúpido assassinato do jornalista Wladimir Herzog, o corpo exibido em cena grotesca de suicídio, pelo órgão repressor! Isso provocou enorme reação, o cardeal Evaristo Arns à frente de ato ecuménico de repercussão nacional. Sob esse aspecto, “O Agente Secreto” difere do premiado “Ainda estou aqui”, de Walter Sales, que tem base num fato real, morte e desparecimento do deputado Rubens Paiva, ocorrido no período mais sombrio do regime militar, embora no filme não haja nenhuma cena explícita de tortura.
E a perna cabeluda?
Aparece de repente agredindo pessoas. Choca a plateia aquela perna batendo a torto a direito em casais em atos sexuais, travestis, putas, marginais. O pau come assim, sem mais nem menos! Por que Kleber Mendonça lembrou da perna cabeluda? Aqui em Pernambuco é lenda de origem nebulosa, com muitas versões. A mais plausível se enquadra no clima do filme, que aviva a história recente, a perna cabeluda simbolizando ações praticadas sem que apareçam a cara, rastros, armas e artimanhas usadas pela repressão para esconder a autoria do crime. O trucidamento, em maio de 1969, do jovem padre Henrique, auxiliar de dom Helder Câmara, é episódio emblemático desse tempo que não deve ser apagado jamais. Ainda hoje aquela brutalidade é comentada, a três por dois.
A alegria vai além de duas estatuetas.
Em atmosfera de falas, gestos, ações, silêncios, desempenho de nossos artistas, “O Agente Secreto” é um alerta para não esquecer o passado naquilo que teve de mais cruel e nocivo à democracia: a liberdade individual, coletiva, a tortura. Cultivar nossa memória é preciso. Hoje mais do nunca.
Sócio da Academia Cajazeirense de Artes e Letras
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